Domingo, 6 de Dezembro de 2009

há cerca de um mês que uma aranha

muito pequenina (e provavelmente peluda) se instalou no tecto da minha casa-de-banho, mesmo por cima da banheira, pensava que o vapor dos banhos quentes de inverno lhe iriam liquefazer a cola das patas, que ela iria cair um dia, não sem antes, nesse fatídico momento, se despedir de mim, toda encharcada, enquanto girava num remoinho de água e espuma ralo abaixo, mas não, continua cá,

naturalmente que não a matei, não é por medo nem gosto, é um estar-me a borrifar mascarado de budismo tibetano (e não, não sejam precipitados, a casa onde vivo está limpíssíma, já viram este blog?, como ele é arejado e organizado?, parece que cheira a ajax floral, aprecio viver na limpeza, não pensem que moro como o unabomber, o facto de ter aranhas no tecto não é necessariamente indício de desleixo, pode ser uma opção de vida, como outra qualquer, em vez de um cacto tenho uma aranha, vou só fechar este parêntesis) e vou explicar porquê,

é certo que esta inquilina imprevista não paga renda, não faz nada em casa, não limpa, não cozinha, não lava nem passa, mas também não faz despesa, não chateia, não suja, nem faz perguntas, limita-se a estar ali, de cabeça para baixo, com a luz da lâmpada a dar-lhe por baixo, de modo a projectar no tecto uma sombra que faz dela o dobro, a ver se me assusta, aranha marketeer,

tão preguiçosa que nem pachorra teve ainda para fazer uma teia, provavelmente porque não há moscas cá em casa, não faço ideia do que anda a comer, se é muito ou pouco o certo é que não tem engordado, mantém-se pequenina há um mês, mas também pode ser daquelas que enganam, cabras de metabolistmo acelerado, aranha kate moss, aranha corpinho danone, já me preocupei com o que anda a fazer de noite, ainda bem que tenho as tostas do pingo doce trancadas a sete chaves,

percebo que não tenha ido para o quarto ou para cozinha, porque mal páro lá, mas podia ter escolhido a sala, que é onde construo o meu futuro, mas pronto, foi para a casa-de-banho, aranha voyuer, que me vê todos os dias, de manhã e à noite, no exercício escatológico das minhas alegrias e desgraças, mas já não me ralo, não me importo que ela me veja o apêndice caudal, reflectido por todos os ângulos por um espelho gigantesco, é bom voltar a partilhar esta intimidade com um ser vivo, já é um princípio de qualquer coisa,

até estou a pensar dar-lhe um nome, fazer como aqueles telefonemas nos resgates (isto tudo aprende-se com o fbi, que é uma empresa de hollywood muito conhecida que dá cursos de comportamento social que a gente compra em fascículos na fnac), dá-se logo ao pelintra o nome do refém para que ele o visualize como uma pessoa, não apenas um objecto de troca, assim será mais difícil o meliante dar um tiro na cabeça do meliado

(esta palavra inventei eu agora, tinha uma professora de semiologia que nos incentivava a inventar palavras, e eu estou cá para agradar aos semióticos, que é gente muito influente, é gente que vê mais além, um 2 que é 3, um 3 que é 1, quem já estudou semiologia sabe do que falo, temo os semióticos, diria que em terra de cegos quem tem um olho é semiótico, ou semi-óptico, para abusar do trocadilho (é que acabei de ler um livro do cabrera infante, que é dado a muitos trocadilhos e jogos de significações, e depois de ler um autor novo fico a escrever como ele, tal como em puto ia para a rua dar pontapés no ar depois de ver um filme de porrada, estas influências depois passam e voltamos a ser incaracterísticos, isto no fundo era só para dizer que consegui fazer uns parêntesis dentro de outros parêntesis, mas vá, acabou-se a palhaçada e vocês têm mais que fazer, vou primeiro fechar um), fechar o outro),

e voltar ao que interessa, que é dar-te um nome, no name spider, o ano passado estive no rio jordão e trouxe de lá água, a mesma que há dois mil anos baptizou um carpinteiro muito conhecido e que já passou debaixo de tantas pontes e por cima de tantas cabeças que vem toda castanha, mas acho um desperdício gastar água sagrada em ti, além disso também não sou cristão, façamos disto um acto simbólico, dar-te um nome rapidamente, para que veja em ti sentimentos, se não um dia acaba-se o budismo e esborracho-te com o diário de notícias, que é bom jornal para estas coisas, ao contrário do i, que, como eles dizem no slogan, é 'um jornal que não se dobra', acho isso um disparate, se é um jornal que não se dobra não serve para esborrachar aranhas, e um jornal que não serve para esborrachar aranhas mais vale estar quieto, seja como for era só para dizer isto,

que baptizei agora a minha aranha de rosalinda, só rosalinda, assim mesmo, sem pai nem mãe, vou acordar de manhã e dizer 'olá rosalinda, dormiste bem?', e à noite 'beijinho rosalinda, dorme bem, não me vás às bolachas', um dia destes vou matá-la, só vai ficar uma mancha preta, que limparei prontamente com um toalhete, mas antes disso tudo prometo que vou tratá-la bem, digam lá se os romances de amor não são assim também.

8 comentários:

Gingerbread Girl disse...

Porra, tão grande! :s
Eu leio amanhã, que agora tou sem tempo...

MA-S disse...

Oh que lindo! adoptou uma aranha e faz parêntesis dentro de parêntesis.
cousa mai linda...

Icon disse...

quem ama assim, percebe de semiótica!!!

eu... disse...

Espero que não durmas de boca aberta.
Lindo.

mjoaob disse...

Ela não vai resistir e vai 'atirar-se'. gaja que é gaja não é muito dada a amores platónicos. ;D

S* disse...

Errr... Eu não tomava banho nesse quarto de banho... Olha imagina se a bicha resolvesse saltar-me para cima ao ver-me nua?


ahahah

Anónimo disse...

Acho que acaba com maus tratos/violência doméstica...

Ana disse...

Tu és tão engraçado pá... :)

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