ter com uma amiga, cujo pai morreu, eu não sabia onde ele estava, nem onde ela estava, fui à recepção e expliquei o problema, não, não sei o primeiro nome do senhor, só sei o apelido, não conheço o senhor, aliás, só conheço a filha, vim cá para ajudar na hora da morte, é antunes, disse eu o apelido (não é, mas vamos imaginar que é), desculpe incomodá-la, a morte dos outros deve-lhe ter esfriado a paciência, eu também não sou um bicho paciente, eu percebo e perdoo, você conformou-se com as desgraças dos outros, eu conformei-me com as minhas, virou-se para trás e gritou para os colegas 'morreu algum antunes hoje?', não morreu nenhum antunes, disseram eles, eu sei que morreu, mas eles diziam que não, vá ali à urologia, que deve estar lá, disse-me a senhora, obrigado,
o segurança, perguntámos pela minha amiga, que é uma figura pública, ele sabia quem era, e disse que não a tinha visto passar, não está cá, só podem passar por aqui e eu não a vi, disse ele, e nós obrigado e boa tarde, olhei lá para o fundo e vi-a, afinal ela tinha passado por ele, afinal o antunes morreu mesmo, e está dentro do hospital, e está mesmo morto, obrigado pela ajuda da senhora da recepção e do segurança, não faz mal que vocês não consigam fazer melhor, vocês não têm culpa, fizeram-vos assim, bom natal para vocês todos,
antes de entrar, reparei num homem a ler um livro de fernando pessoa sentado em cima de um muro pequeno, tinha um jornal debaixo para não sujar as calças, um homem tão português que deve ter sido o muro a pô-lo lá, ao lado estava uma mulher velha a fumar, tão inerte que era o cigarro que a fumava, tinha o cabelo vermelho com as raízes pretas, pintou uma vez e ficou sem dinheiro, sem paciência, está à espera nos muros da cidade que o cabelo cresça para voltar a ter só uma cor, passado um bocado entrou numa furgoneta velha, bordeaux ferrujento, que se deixava conduzir por um pescador de gorro azul e colete reflector amarelo,
dentro do hospital havia um jardim muito bonito, com palmeiras muito altas, com muitos frutos espalhados pelo chão, à espera da chuva para se enterrarem no chão e florirem muito, no centro havia uma rotunda circundada por muitos bancos brancos, um deles, vi ao longe, tinha uma placa, calculei que fosse evocativa da inauguração, que falasse da construção do hospital, de há tantos e tantos anos, quem sabe as palmeiras não tinham vindo das colónias, ou pelo menos as sementes, gosto tanto de palmeiras, há um jardim na foz do porto que é o meu preferido, tem muitas palmeiras e um morro para o mar, parece os postais antigos de áfrica, apressei o andar para ler a placa, cheguei perto mas era só um papel colado a fita, já gasto de tanto tempo ali, ninguém o tirou e ali ficou a dizer 'apartamento t2 arrenda-se mobil. e equip. entrecampos, arrumação, garagem...'
havia por lá vários pilares pequenos a delimitar passeios e estacionamentos, todos de pedra, alguns em forma de sinos, outros de aspecto fálico, como os lingas de shiva, à espera de flores e de manteiga derretida, shiva deus da destruição e da criação, ao lado havia um edifício pequeno onde estavam os mortos do dia, havia um cadáver de olhos abertos, parece que o último gesto em vida foi de espanto, meu deus, que vou morrer,
foi lá um funcionário do hospital e passou as mãos pelos olhos, fechou-os com a mesma mecânica fabril com que ligou e desligou a luz, como a senhora da recepção quando perguntou se morreu algum antunes hoje, trabalhasse ela no café que havia ali ao lado e diria com o mesmo tom 'não temos coca-cola, pode ser pepsi?', 'não morreu nenhum antunes, pode ser um ferreira?', estou a escrever isto e está a dar um anúncio na televisão de um cartão de pontos que as farmácias agora têm, quanto mais o usar melhor se sente, dizia a voz, deve ser por isso também que o pai natal do jardim do hospital era insuflável,
deve ser por isso que em timor há quem acredite que os mortos fazem o caminho para a luz das trevas montados num cavalo, eu já escolhi o meu, todo preto, eu montado nele e ele a cavalgar, com a crina ao vento e os músculos pujantes e brilhantes ao sol, enquanto para trás vai deixando um rasto fumegante de excrementos.
6 comentários:
Raio de incompetência... Choca-me sempre notar que tratam as pessoas como "mais um doente", apesar de entender a frieza exigida pela profissão.
E esse jardim, no Porto, junto à foz, é a coisa mais linda. :')
se houvesse mais pessoas a ler fernando pessoa (eu gostava de ver pessoas na rua a ler fernando pessoa, mas nunca vi...) não havia funcionários e funcionárias assim...
lamento pelo antunes. ele ia gostar de ler uma crónica linda como esta...
Navegante
Vivi em Timor um ano e pouco, tenho amigos timorenses e nunca ouvi falar dessa crença no cavalo depois da morte.
Talvez seja ignorância minha, a imagem é bonita mas mesmo que não o fosse, até não interessaria muito, a morte é a morte e um dia todos olhamos para ela de frente, até os funcionários dos hospitais, porque nem sempre vai ser a dos "outros". Não vale a pena dar qualquer importância, porque essa tem que ir para quem foi e para os que deixou. O resto dos outros é só isso. Quando é isso que querem ser. O resto.
vais ao museu do oriente e está lá um estatueta em madeira de um cavalo com um 'morto' em cima, e a devida explicação. a imagem foi tirada daí. bj
Choca-nos a frieza das pessoas que trabalham todos os dias com essa realidade. Compreendo o distanciamento mas não a total falta de empatia.
Lindo texto, a última frase ficou melhor assim.
Caríssimo. Este teu texto foi das melhores coisas que tenho lido ultimamente. E é de graça!!! Anda um gajo a comprar livros quando existem estes oásis à espera de um par de olhos.
Abraço
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