Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

estou a escrever

depois de ter chegado a casa, uma da manhã, três whiskys depois, a somar a quatro imperiais antecessoras, acho que foi isso, a partir de uma certa altura, depois de bebermos a partir de uma certa conta, deixamos de ter habilitações para conduzir e para somar, mas como somar não põe em risco a vida dos outros posso somar à vontade que não vou matar ninguém, de modo que se isto estiver mal escrito é a vida, ou seja, o álcool, que é uma palavra muito engraçada porque tem acento no a quando devia ter no segundo o, a própria palavra embriaga,

o acaso do destino levou-me a sintra, mais propriamente a apanhar o comboio que vai de lisboa a sintra, que é uma coisa que fiz durante quatro anos e que não fazia há muito, entrei e comecei logo a arrasar, passo a explicar,

ia uma mulher a ler um livro branco que não tinha mais de cem páginas, ao lado ia outro que ia a ler um amarelo e mais grosso, não lhe dava mais de trezentas páginas, os dois deviam ser sindicalistas, não faço ideia se eram, mas cheiro sindicalistas a quilómetros, este tinha rabo de cavalo e um mala do caronel tapioca com um cão de peluche pendurado, mais atrás ia outro homem com uma mulher, ela ia de chapéu de chuva e ele ia a ler outro livro, este ganhava, o livro era do stieg larsson, que era um tipo dado a escrever livros com seiscentas e tal páginas, acontece que eu entrei com o '2666', que tem mil e trinta páginas, de modo que ganhei claramente este combate, ninguém tinha um livro mais grosso que o meu, eu sei, eu senti, percebi a cara de desilusão deles, mais tarde entrei noutra competição,

no fim do jantar fui à casa-de-banho urinar, que é uma palavra medonha, mas sempre é melhor que mijar, no urinol estavam duas barras de cheiro, não faço ideia como se chama aquilo, mas eram barras e cheiravam bem, pelo menos quando direccionei as quatro imperiais directamente sobre elas libertaram uma fragância agradável, o certo é que não as parti, foi aqui que entrei neste combate, porque todos os homens quando vão urinar e se deparam com barras de cheiro ou bolas de naftalina querem ser os tais, os que arrebentam com elas, as partem em duas, ou as desfazem, que é a suprema glória, não levem a mal, é o espírito de competição que está em nós,

mas é preciso ter sorte, é como a árvore das patacas da fátima lopes, ligar várias vezes até a nossa chamada corresponder ao número previamente seleccionado, com isto é a mesmo coisa, o dono do estabelecimento mete uma barra de cheiro no urinol e até ela se partir em duas é preciso que seja agredida por mais ou menos trezentos homens, e mesmo isto varia, porque depende da força do jacto e da duração, que é como quem diz se é bexiga de miúdo, jovem ou homem, bexiga cheia, média ou quase vazia, bexiga da manhã, da tarde ou da noite, bexiga de café, de sumol ou de cerveja, mas em média tens de ser o mijador número trezentos, ou por aí à volta,

mas estas barras eram recentes, devo ter sido o décimo quinto a urinar-lhe em cima, de modo que se voltar a este restaurante em janeiro tenho grandes hipóteses de ganhar isto, se o conseguir basta chegar ao balcão e dizer ao dono 'já está', e ele, em bom estilo maçónico, vai a um saco preto escondido numa prateleira, tira de lá uma taça e dá-ma, eu agradeço com um aceno de cabeça e saio discretamente, o dono pega então noutra barra de cheiro e mete no urinol, o primeiro homem que lá for percebe logo, pelo bom estado da barra, que acabou de sair o grande prémio a alguém, a vida na cidade é assim mesmo, muita tensão e competição, ligas e superligas privadas, coisas em códigos que só nós percebemos.

o que é que fui fazer a sintra? ganhar um combate, perder outro e dar mais uma pequena facada noutro, este maior do que os outros.

5 comentários:

april disse...

tchim tchim...

eu... disse...

Talvez mais importante do que a frequência com que fazem pontaria às barras é a qualidade da substância com que o fazem e isso dependerá daquilo que ingerires...

Marta disse...

Estou encantada com o teu xixi - que um dia vai partir bolas e barras de naftalina. Orgulho, é a palavra certa. Mas essas dos combates, amigo...

Anónimo disse...

e pelos vistos foste aumentar a facturação do dono do tasco que a partir de agora pode aferir o deve e haver a partir de bolas de naftalina partidas o que é coisa para o fisco não desdenhar...;)


(e vencer a sindicalistas, vá...que é coisa que não se vê todos os dias...)

Navegante

Alfacinha de Portugal disse...

As coisas que inventam para um homem brincar quando vai ao WC!

Ou é como as crianças? Um incentivo para o xixi (sempre é melhor que urina) sair?

As pastilhas de cheiro substituem as palavras da mãe ou a água a correr... e, divertidos, saiem das tocas alegressss....

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