A morte de alguém que é uma referência da geração que está à minha frente desperta-me um certo sentimento de pesar genuíno, porque sempre é um ser humano que morre, mas é um pesar cínico, não porque tenha algum sentimento sádico de desejar o mal aos outros, mas porque sou uma máquina de competição e de dominância, mal de que sofrem todos os bichos e plantas, das ervas daninhas às sequóias,
a minha geração luta pelo seu lugar, com um olho virado para trás, de medo de ser ultrapassado pelos mais novos, e outro virado para a frente, à espera que a ordem natural das coisas definhe os mais velhos e que nós lhes tomemos o lugar,
daí que a morte dos seus ídolos, das suas referências, é encarada meramente como política, baixa política, realpolitik se quiserem, é sinal de que a geração à minha frente está a ficar sem os seus trunfos, sem forças, é sinal de que está a chegar a nossa hora, obrigado pelo que nos ensinaram, mas saiam da frente que nós estamos aqui, fortes e pujantes, também temos os nossos Antónios Sérgios, não nos digam que antigamente é que era bom, agora é que é,
não nos perguntem é no quê.
2 comentários:
Lembro-me muito bem da voz dele...
A ordem lógica do tempo é assim, uns dão lugar aos outros, era bom era que o nível também fosse crescendo e aí a responsabilidade é nossa.
Os bons têm sempre o seu lugar garantido, valem pelo que são.
Os medíocres vivem na esperança de ser outros que não eles, e à força de viverem pendurados no colarinho de quem tem valor, não são mais que migalhas.
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