Naquela altura, há vinte anos, eu ia ao Estádio da Luz ver o Benfica e nunca pagava, porque jogava nos iniciados de um clube de bairro e tinha um cartão que dava para ir até ao terceiro anel, ou então entrava com o meu pai, que levava sempre uma almofada para pôr debaixo do rabo, fizesse chuva ou sol, não é bem uma almofada, se há pessoas crescidas a ler isto sabem do que estou a falar, se não perguntem aos vossos pais o que são as almofadas que antigamente se levavam para a bola,
naquela altura, também não pagava quando decidia alugar um pai que não conhecia de lado nenhum, punha-me à volta do estádio, escolhia um pai com cara de simpático e perguntava posso entrar consigo?, como se fosse seu filho, isto porque naquela altura as crianças não pagavam se estivessem acompanhadas dos pais, e havia sempre um senhor simpático que me deixava ser filho dele, e então eu entrava com o meu pai e depois de passar os portões dizia obrigado e passava a ser órfão outra vez, de língua de fora a subir as escadas até entrar naquelas bocas para o anfiteatro das bancadas, onde o estádio se abria sempre todo aos meus olhos, a receber-me como um filho, como se fosse a primeira vez, ainda hoje é assim, ainda hoje a entrada no estádio é como se estivesse a entrar num mundo encantado, eu sei que isto é tolice, mas o futebol é assim mesmo, o sítio onde vamos para ser como os tolos,
naquela altura, ocorria muitas vezes o fenómeno de haver mais espectadores do que lugares, vi muitos jogos no colo do meu pai, principalmente contra o sporting ou o porto, que são os nossos rivais, de tal modo que escrevo o nome deles em minúsculas, às vezes estava tão cheio o estádio que nas saídas e entradas lembro-me de olhar para cima e ver as pessoas crescidas a entalarem-me muito e o meu pai a dizer cuidado que está aqui uma criança, o que era uma pena mesmo era estar sempre esganado de fome e ter vergonha de pedir para comer umas queijadinhas de sintra, que eram vendidas por uns senhores de boné,
naquela altura, comprávamos os bilhetes para o anel que queríamos e o lugar era onde houvesse uma nesga, ao contrário dos cinemas da altura, em que tínhamos o lugar marcado, agora é ao contrário, no cinema ficamos onde quisermos e, no estádio, para ver os cabelos ao vento do Aimar é como se fosse cinema,
naquela altura, quando uma parte do estádio enchia podíamos saltar a vedação e ir para outra, lembro-me de mim em puto de dez, onze anos, a subir ao parapeito do estádio, olhava muito lá para baixo e estava a quarenta metros da rua, um perigo tamanho, o coração saltava-me todo mas eu não podia pensar em agarrá-lo porque tinha as mãos ocupadas com a vedação, punha um pé num sector, arqueava a barriga e saltava para o outro lado, muitas vezes os parapeitos tinham uma espécie de pregos e eu muitas vezes aleijava mesmo os pés, que ainda eram pezinhos, se é que me desculpam o parêntesis, mas tudo se fazia para ver o Magnusson e o Valdo, o Silvino e o Diamantino, o Rui Águas e o Manniche, o Bento e o Nené, o Mozer e o Ricardo,
naquela altura, não havia cheerleaders, nem águias a voar, não havia seguranças a pôr o bilhete numa máquina, entrava-se por uma porta muito estreita, em puto entrava bem, conforme fui crescendo tive de começar a rodar o corpo para passar, naquela altura não havia adeptos de fato e gravata como há tantos hoje, acabados de sair dos empregos nos bancos e nos escritórios, até porque naquela altura o Benfica jogava aos domingos às três da tarde e nós vínhamos de t-shirt e calças de ganga, e fazíamos uma coisa que já não se faz, que é toda a gente bater com os dois pés no chão, assim muito depressa, era uma espécie de terramoto, nunca percebi bem a ideia, seria talvez para meter medo aos outros, o que sei é que não houve uma única vez que não ficasse com pavor que o estádio caísse, é hoje que isto vai abaixo, pensava eu, e foi mesmo, o meu Estádio da Luz foi ao chão por causa do progresso e das coisas novas,
mas há coisas que nunca mudam, esta semana vi coisas na Luz que ainda me lembram os meus tempos de miúdo, o Benfica voltou a ser um monstro avassalador de sangue, o árbitro continua a ser o ladrão, ainda há gente que grita remata com força!, assim mesmo, entre o conselho de um amigo e a ordem, ainda se vê a nuvem de fumo dos cigarros a subir toda lânguida pelas bancadas, ainda há os couratos e as bifanas a soprarem na grelha, naquela altura atafulhavam-se em barraquinhas ao lado dos cachecóis, hoje é em roulottes topo de gama com televisão a cores, mas o tempero, isso garanto-vos, ainda é o mesmo, ainda há senhores a vender queijadinhas de sintra e a chatear-nos quando nos pedem para passar, mas agora usam crachás com nome e fotografia,
ainda nos levantamos quando o da frente se levanta e ficamos a contar que o que está atrás de nós se levante também, ainda se grita a este jogador passa a bola àquele, ainda fazemos assim com o braço a dizer-lhe como é que devias ter rematado, como se tu ouvisses alguma coisa aí em baixo, ainda se conversa com o tipo do lado, que no final do jogo já não é um tipo qualquer, é um porreiraço, no fundo tudo pode ser novo e moderno, mas as coisas irracionais ainda lá estão, suponho que com os outros clubes também seja assim, mas com o Benfica é diferente, não venham dizer que não é, porque senão temos aqui zaragata, ah, tantas zaragatas que havia naquela altura...
19 comentários:
Bolas, tenho que ir ao estádio da Luz...
Que GRANDE texto. E eu, que sou Benfiquista (também em maiúsculas) há 25 anos nunca pude ir ao Estádio da Luz. Um gajo do Norte, com pouco dinheiro para esbanjar, sofre disto. Vê o Benfica em Braga, no antigo 1º de Maio, e leva com uma espécie de mini Estádio da Luz. A ver se é este ano que desço à capital.
Btw, suponho que fales do Manniche no teu texto e não do Maniche.
sim, já emendei.
saudações benfiquistas :)
Este texto trouxe-me à memória tempos tão bons, faltava às aulas em Almada para ir ver os treinos à Luz, porque era a única maneira de os ver de borla.
Mais tarde lá juntava "uns trocos" e ia ver os jogos.
Bem visível na memória qual Madalena de Proust a "entrada" nas bancadas, e um incrível mundo de fantasia se desenrolava ali, não havia tristeza, nem frio quando chovia, que bancadas cobertas, era só para alguns...
Muito obrigado, MESMO, pelo teu texto.
Um abraço (benfiquista, daqueles que se dava ao parceiro do lado, mesmo que não os conhecesse de lado nenhum, só porque marcávamos um golo)
ps: esta última frase fez-me lembrar quando as pessoas se cumprimentam na missa, e vai daí o estádio da Luz sempre foi a Catedral.
Magnífico texto, as coisas eram tal e qual assim, apesar de ser mulher, muito cedo foi introduzida nas lides do Estádio. A minha família vendia por lá umas bifanitas. Não nessas roulotes ultra modernas como as de hoje, mas umas coisas feitas às três pancadas, com uns balcões improvisados de tábuas e ferros. Entrava sempre quando o jogo já estava a decorrer, que era quando os clientes já tinham abandonado o estaminé, e ficava muitas vezes nos túneis de entrada. Por que aquele estádio enchia, ai não que não enchia. Obrigada pela recordação.
esqueci-me dos couratos. já acrescentei :)
Eu também ía com o meu pai, apesar de contrariado pois não gostava e ainda não gosto de futebol e ele também tinha essas almofadas que pareciam uma agenda que se dobrava ao meio e tinha um fecho de mola :)
PS: agora pensando nisso...eu queria é que ele me levasse para o autodromo mas infelizmente o Rei é o futebol
Sergio
mas que nostalgia...
gostei muito do teu texto, embora seja adepta de um dos clubes que escreves com letra minúscula.
a magia é mais ou menos a mesma, mesmo que não acredites. bonito, gostei de ler!
E já agora, please, vê se não retiras este texto. Está mesmo bom!
Parabens, gostei muito do texto (embora seja portista)!=P
B*
perfect. absolutly perfect.
muito bom!
A primeira vez que fui ao estádio da luz, fui para ver os festejos de um título. E ver o meu clube a jogar que não é o Benfica. Foi no longínquo ano de 94. A época dos 3-6!
Já tinha uma costela do Benfica na altura mas, nesse dia fiquei impressionado e fiquei com mais umas costelas vermelhas!
Este ano, o Benfica dá gosto!
muito bom!!!!
Bela e saudosa nostalgia.
só entrei uma vez no estádio antigo do Benfica, sem ser sequer dia de jogo (já que estava em Lisboa chateei a minha mãe para ir ao estádio, depois foi só cantar um fadinho ao segurança), já estava meio demolido mas deu para sentir a imponência e energia daquele lugar. :)
Beinfica!!! Benfica!!!
Nunca fui ao Estádio da Luz, mas um dia hei-de percorrer mais de 300 km para lá ir. E vou adorar, quer o Benfica ganhe ou não. Sei que vou adorar. :)
Beijinho de uma benfiquista que adora os teus textos.
Um dos teus melhores textos, e é logo sobre futebol. Não deixa de ter a sua piada :) eu cá sei porquê.
Acho que descreves um pouco o que é pertencer a essa grande família que é ser português e é gostar de futebol, que para mim, sempre foi sinónimo de Benfica.
Os do porto que se fodam, e os do sporting, um clube de tios.
Parabéns pelo texto.
tu lá deves saber porquê...
eu não sei a que se refere.
bjs benfiquistas
Excelente. Fez-me lembrar muita coisa. Apesar de "menina" (http://tresgues.blogs.sapo.pt/12059.html) o meu pai sempre me levava ao estádio. E tudo isso não se esquece assim do pé p'rá mão. Acho mesmo que fica para o resto da vida!
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