Eu nunca estou doente. Não sei o que é um hospital, não conheço marcas de comprimidos, nada me dói, de nada de queixo, nunca faltei ao trabalho, excepto devido a imprevistos pessoais, e esses dias foram sempre queimados com folgas em atraso e férias, ou seja, tenho o cadastro limpo, mas já vim trabalhar com grandes constipações, febres, dores de dentes, cansaço extremo, com os olhos a "sangrar" de tanto trabalhar em frente a um computador.
Ando no mercado de trabalho há sete anos. E tenho visto muitas doenças, ainda agora esta semana vi duas, uma já aconteceu, a outra está a acontecer agora, teatro do bom, conto mais à frente.
Regral geral, são ataques súbitos que acontecem depois de um raspanete, grandes tragédias em que o estômago é o alvo preferencial, porque o estômago está no domínio insondável das tripas e dos ácidos - "dói-me o estômago", mas tu estás bem, "mas dói-me muito", pronto, está bem - dores que começam à sexta e acabam ao domingo à noite, numa precisão matemática que me leva a julgar a medicina uma ciência exacta, para não falar dos filhos, miúdos de aço, excepto às sextas e segundas, dias em que se tornam frágeis criaturas com doenças arreliadoras, e depois vêm os esgotamentos...
ah, os esgotamentos, adoro um bom esgotamento, a palavra parece gerúndio, coisa continuada no tempo, tem a vantagem de dar muito tempo de baixa, mas requer uma teatrilização prévia de vários dias, porque é suposto um esgotamento não se apanhar assim como quem apanha um choque eléctrico, caso contrário até parecia que se estava a fingir, começa-se com um ligeiro toque ao patrão, em conversa, como quem não quer a coisa, "estou tão cansada...", "dói-me tudo...", é o primeiro passo, depois andamos de cabeça baixa, tristes, sem falar muito, estamos a "esgotar", coisa que exige uma concentração absoluta, uma gargalhada não contida e lá se vão por água abaixo dias e dias de bateria baixa,
ah, adoro assistir a isto, porque inventar uma dor qualquer no barriga é do domínio dos cobardolas, teatrilizar um esgotamento à frente de todos, vários dias a fio, é de artista de cinema, por isso digo que quem me tira um esgotamento a decorrer tira-me tudo.
11 comentários:
Se quiseres vou aí contaminar o pessoal com espirros. Pelo menos sempre é coisa que se vê... ou ouve! :)
E as intoxicações alimentares? Bem, há pessoas que as apanham todos os meses. Coitadinhas, deve ser uma aflição. Há também as dores de gaja (daquelas que como são cabras não se dão com o trifene) e as enchaquecas (que não passam de dores de cabeças patrocinadas a alcóol na noite anterior). Eu divirto-me com as pessoas doentes, acho-lhes graça até porque elas vão para a cama comigo porque me F*dem a fazer fazer o trabalho delas.
Pronto, já desabafei.
Beijo, e não te esgotes não?
Ahahahah... só tu!
achei um piadão a cada frase e assino por baixo!
sou como tu, ou seja, pertencemos ao bando dos otários, lol.
e ainda há as mortes da melhor amiga, do tio, do primo...etc
Ah, o bom e velho estigma de que quem sofre achaques mentais é fracou e/ou preguiçoso.
Por acaso a mim chateia-me mais ter alguém a contaminar o ar que me rodeia com vírus, só porque é tão, mas tão forte, valente e determinado que insiste em ir trabalhar doente.
Ao menos a depressão (ou as enxaquecas - que existem, helas) não são contagiosas.
Subscrevo isso das enxaquecas. Só quem não as tem pode achar que são uma tanga! Mas eu sei que tu sabes isso ;)
claro. :)
o texto é sobre as tangas, não as coisas a sério.
bjs
Ps: não me levem tão à letra...
Sim, porque quando não é tanga nota-se...
Hás-de contar as ofertas de emprego que este post te rendeu!
De certezinha que trabalho nunca te faltará depois disto.
(Vós que sois jovens, alguns imberbes e pouco sábios, pousai aqui os olhos e aprendei!)
Não há falta de empregos, o que falta é mais malta deste clube.
Eu também nunca faltei. É certo que também nunca esgotei ;)
Mas hoje em dia as pessoas estão sempre a dizer "tenho muito sistema nervoso". Adoro esta frase. Por incrível que pareça, fico a olhar para elas, porque parecem não ter nenhum!!
As depressões? Santa Maria milagrosa, estão por todo o lado! Não estou a dizer que não as há, porque há e podem ser bem sérias. Mas acho que metade das pessoas que anda por aí a tomar prozac e sertralina e mais não sei quê melhorava muito mais depressa com um pouco de juízo na cabeça!
Sem mais palavras. Excelente!
se há característica que é típica do trabalhador português é esta: ninguém trabalha tanto quanto eu, que por acaso nunca fiquei doente.
gosto de te ler, embora não concorde metade das vezes contigo :)
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