São duas da manhã e acabo de chegar de um jantar com as pessoas que me contrataram. Comemos num restaurante de cozinha francesa do Bairro Alto, carne deliciosa, vinho excelente. Brindámos ao futuro, fizemos planos, brindámos outra vez. Mas eu ainda não estou lá. Ainda estou aqui.
Hoje é o meu último dia neste sítio. Saio triste porque foi a minha primeira derrota profissional. Estive dois anos no “Projecto” sem nunca ter estado nele. Nunca foi o “Projecto” que gostava que fosse, nunca foi o que já foi e que tinha esperança que voltasse a ser. Saí porque perdi a esperança, saí pela mesma razão que o José Eduardo Moniz invocou esta semana para sair da TVI: voltar a sentir-se especial. Quem tem sangue vivo raramente se acomoda ao ordenado, precisa sempre de mais, precisa de desafios constantes, e precisa de se sentir respeitado, amado, especial.
Foi a minha primeira vez a chefiar. Aprendi muito, cresci. O lógico. Dos outros espero sempre o pior, por isso, se me surpreendi, foi pela positiva. Gente que escreve maravilhosamente bem, com um brilho nos olhos, honesta, dedicada, profissional, gente que me fez sentir especial, que me deu muita coisa maravilhosa, de pastilhas a sorrisos, de bolachas a cigarros, de beijos a maçãs.
Esfrangalhei as estagiárias, não lhes admiti a mediocridade, a preguiça, o desleixo, a incompetência, algumas choraram, outras viraram-se contra, mas houve quem percebesse. Dos mais velhos, apanhei o bom e o mau. Ganhei inimigos logo nos primeiros dias e sempre me orgulhei deles, alimentei-os com carinho e levei-os à rua com esmero. Foram os meus animais de estimação e, agora que me vou, temo pelo futuro deles.
É uma derrota, mas pelo menos ganhei para a vida algumas pessoas muitos especiais. Sei que posso passar sempre por cá, que vai haver sempre alguém que vai descer para me aturar um bocadinho e fumar um cigarro. Isso ninguém me tira.
17 comentários:
Trabalhar sem motivação e auto-estima profissional deve ser frustrante. E sentires-te especial certamente que te vai ajudar a sentir e ser melhor profissional.
Olha, eu não vou fumar contigo. Mas posso sempre trocar um sorriso sincero... como no primeiro dia ;)
Boa sorte!
mesmo quem não fuma, vá lá saber-se pq.
Ás vezes temos mesmo que tomar atitudes mais radicais. O nosso bem estar, a nossa sanidade mental depende disso. Por isso se não estavas bem, se não te sentias realizado nada como partir para outra. A vida é demasiado preciosa para a desperdiçarmos com coisas que não valem a pena... beijocas
Partir porque se quer mais...não é nunca uma derrota. És um vencedor!
A vitória é sempre de quem nunca duvida dela.
Olá olá
Desejo-te muita sorte e realização profissional na próxima etapa.
Não encares isso como uma derrota. Tudo que não nos mata, faz-nos mais fortes. E tudo nos faz crescer.
bjs
Pat
Se a mensagem não chegou LÁ, chegou aqui. Sair de cabeça erguida é quase uma vitória nos dias que correm... A maior parte das pessoas sai com a espinha partida de tantos bicos fazer. Gosto mesmo de ti, e de saber que te manténs "direito".
Beijinho
às vezes para ganhar é preciso dar um passo atrás. Há 3 anos tb me demiti de um emprego que jão me fazia feliz, que não me realizava. Foi o melhor que fiz na vida. Boa sorte! E estou certa que brevemente vamos ter boas novidades.
A vida é assim... sair de cabeça erguida é muito bom!
Parabéns... há poucos a orgulharem-se disso.
Das derrotas também se retiram grandes lições...vejo que és bom a fazer isso, agora é seguir em frente...força...:)
bjs
Seria uma pena ficar um lapso neste texto... Início do 5º parágrafo: esfrangalhei.
Desculpa mais uma vez a correcção.
obrigado pelo reparo, já corrigi. curiosamente lembro-me de ter olhado para essa palavra e achar q alguma coisa estava mal e não via o que era
obrigado
O Moniz não se virou ao ordenado, só se for de frente, pois ele deve ir receber mais.
Não era para publicar! lol
"Esfrangalhei as estagiárias, dei-lhes porrada atrás de porrada, nunca lhes admiti a mediocridade, a preguiça, o desleixo, a incompetência, algumas choraram, outras viraram-se contra mim, mas houve quem percebesse que estavam a aprender, que me dedicava a elas porque ainda não tinham os vícios de muitos colegas mais velhos, ainda se podia pegar nelas e moldar-lhes a fibra, ainda tinham salvação".
OBRIGADA POR TUDO!!!!
Agora devolve-me as caixas de pastilhas que me gamaste e vamos fumar um cigarrinho, pelos velho tempos. Tenho saudades tuas e foste dos melhores chefes que tive (e olha que já tive alguns).
Bora jantar?
Tens lume?
:) Mais do mesmo é ir perdendo o sonho de mudar alguma coisa! Triste, triste é aceitar isso sem contestar :)
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