Sábado, 15 de Agosto de 2009

Aquilo

Vou à mercearia comprar pão, entro, digo bom dia, ela não responde, sou-lhe indiferente, está a carregar nas teclas do telemóvel, que põe ao ouvido, que fica a chamar e que ninguém atende, eu fico ali à espera que ninguém atenda, é por isso que gosto de mercearias, tratam assim os clientes, não é por mal, estava mais ralada com a vida do que em me aviar seis carcaças, aliás seis bolinhas, que é o que chamam agora a estas coisas que não são redondas nem pequeninas, como é suposto serem as bolinhas,

depois, ela pergunta-me "e mais, vizinho?", e eu digo que era queijo e fiambre por favor, e ela diz "tssst, ainda agora tirei aquilo", aquilo era o queijo da máquina, diz-me sempre isto, não há sábado que lá vá que não me diga "tssst, ainda agora tirei aquilo", então ela tira aquilo do frigorífico e põe na máquina, começa a cortar fatias e fica à espera que eu diga "está bom", isto é um código que temos, na primeira vez que lá fui ela disse-me "quando estiver diga, vizinho", agora ela já sabe que tem de parar quando eu digo "está bom",

eu já sei também que tenho de dizer que "está bom" antes de estar bom, porque quando digo "está bom" ela faz-se surda e põe sempre mais duas fatias, deve ser o balanço, deve ter a mão pesada, a mão dela é como os carros desgovernados, demora dois quilómetros de fatias de queijo a parar, percebi isso no primeiro sábado que lá fui, se não perceberam vou-vos explicar como é que se percebe,

se quero dez fatias digo "está bom" quando ela chega às oito, porque, como vos digo, desconfio que não ouve bem à primeira, e é certinho, vai mais uma fatia, e vão nove, então repito "está bom", mas desta vez mais alto, e é quando ela finge que agora é que ouviu mesmo, e, veja lá, desculpe lá, já estava a meio de outra fatia, pensa ela que eu penso e não me importo, e é então mais uma, e faz as dez fatias, finalmente, "e então até amanhã, vizinho", despedimo-nos assim, os dois felizes, ela a pensar que me aldrabou duas fatias de queijo sem saber que eu é que a enganei quando disse "está bom" às oito fatias, quando na verdade o que eu queria mesmo eram dez,

no próximo sábado, se houver próximo sábado e eu ainda estiver por cá, o enredo vai ser o mesmo, as bolinhas que não são redondas nem pequeninas, o "tssst, ainda agora tirei aquilo" e as duas fatias de queijo que me fazem acreditar que sou o puto mais esperto da minha rua.

19 comentários:

CybeRider disse...

(Como é que se escreve cinco estrelas?...)

Boa malha!

S* disse...

Gosto de te ler e acho que este foi dos meus textos favoritos. É dificil ter uma escrita deliciosa sobre um tema tão... trivial.

Sayuri disse...

Muito bom, Intruso!

by_Pureness disse...

o máximo, porque uma coisa tão natural se torna tão risonha, coisas de portugueses certamente =)

Beijinho*

Gingerbread Girl disse...

Muito bom, muito bom.

Mas ficaram-me as ultimas linhas. =|
Pareceu-me coisa de suicida a dar o alarme. *thinks*

Tájaver? Maybe not.


*

Cor do Sol disse...

Já não me lembro de ir a uma mercearia. O texto até me fez saltar do reader para aqui. Gostei.

Miss Complicações disse...

Mas há coisa mais fantástica do que a merceria da esquina?
Na mercearia todos são vizinhos, mesmo aqueles que moram a 5 quarteirões de distancia. Por essa razão não vou ao Continente. Lá sou mais uma. Ninguém me trata por vizinha e tanto faz que sejam 10 ou 20 fatias de fiambre. O Tio Belmiro não está nem ai...:)

RED disse...

E há assim umas bolinhas, umas fatias de queijo e de fiambre que sabem como ginjas!

Isabel Rodrigues disse...

Muito bom mesmo! Espectacular. De uma simplicidade enorme, o que para mim é a forma mais complexa de se escrever.

mfc disse...

Essas são rotinas boas... sabem lindamente.

Claudia disse...

Gosto mesmo de me deliciar com os teus textos...

Kate Rose * disse...

gostei. :)

mjoaob disse...

Rir...para começar bem a semana.
Ainda bem que passei por cá.
:)

Maga disse...

e com o fiambre é o mesmo filme, não? ihihih

april disse...

"a mão dela é como os carros desgovernados, demora dois quilómetros de fatias de queijo a parar"
não é maior elogio do que desejarmos ter sido nós a escrever isto.

Maria Anjos Varanda disse...

Mercearias de rua....ou antes de esquina...

Beijos e boa semana

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Quer ver que gastamos da mesma mercearia?

Girstie disse...

E dps queixam-se que as mercearias estão às moscas com tamanha simpatia. Mas vá lá que n ligas :)

joana disse...

Mercearias que mais dizer "vizinho",mas acho que deve ser um problema de todas ouve se mesmo muito mal.
Excelente texto
beijocas

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