Hoje, dez da noite, saio do metro e vou em direcção à praça de táxis, como sempre sou estudado de alto a baixo pelo taxista, tento o ar mais inocente do mundo, se tenho as mãos nos bolsos, tiro, não vá ele pensar que estou a esconder a faca, se vou com uma revista debaixo do braço, abro-a, assim o suficiente para ele perceber que não tenho a pistola lá encondida, o casting corre sempre bem, mas mesmo assim, quando ele arranca e olha para os colegas fico sempre com a ideia que fez um sinal com os olhos, “chamem a guarda, que este gajo vai-me naifar”, adiante,
isto para dizer que ia a aproximar-me do carro e a tentar perceber o motorista, que eu também estudo os tipos, e este não estava a ver, também era de noite, mas não estava a ver, só quando chego mesmo ao pé é que o vejo assim de relance, entro e vejo que não era um homem, era uma mulher, vi logo que ia ter festa,
ela estava ao telefone, assim que abro a porta vira a cara, o corpo dela responde ao movimento da cabeça e também vira, e depois abre muito os olhos, assento o rabo e sinto-lhe os olhos, olho para ela e só vejo olhos, ponho a outra perna para dentro e sinto os olhos, fecho a porta e os olhos..., grandes, pretos, banais, olhos de carneiro, olhos de sebo, olhos de cigarro, olhos grandes, gordos, grotescos, esboço o sorriso e ela nada, só os olhos, calculo a pessoa suspensa do outro lado do telefone, à espera do veredicto, a porta fica mal fechada, abro e sinto os olhos, fecho e sinto os olhos, digo o destino:
- “É para X, por favor.”
mas o que eu tinha mesmo vontade de lhe dizer era:
- “É ali para trás, que te vou rasgar a garganta.”
mas não disse isso, disse apenas:
- “É para X, por favor.”
ela pisca os olhos e diz ao telefone, muito baixinho, o veredicto:
- “É para X. Um rapaz...”
não demorei a perceber porque é que não conseguia vê-la de fora do carro, era pequena, ainda mais enterrada no banco, o que explica os olhos fixados, chegava a muito custo ao espelho retrovisor e era-lhe mais fácil virar-se, a guiar era mais complicado, para ver para trás tinha de se levantar e esticar o pescoço, lembro-me do Darwin, da evolução das girafas, que ficaram assim com o pescoço para chegarem às ramas mais altas, e eu a pensar que se ficares um milhão de anos no carro a olhar para o espelho vais ver que consegues chegar lá sem esticar a perninha,
digo o meu destino e ela arranca, na verdade o carro descai cinco metros no arranque, lembro-me das piadas das mulheres ao volante, lembro-me só, não digo, ela tinha o cabelo pelos ombros, sujos, no meio tinha a marca de um elástico, que estava no pulso e era amarelo, pendurado na chave da ignição ia um amuleto, que era um ténis, branco, nem era um ténis pequenino, era grande e dava para calçar uma criança pequena, ao lado do banco tinha um saco da farmácia, que escondia uma fortuna em moedas de cêntimos, num viaduto mais à frente íamos tendo um choque frontal, ela não percebe, só ouve a buzinadela do outro, que foi quem se desviou,
ela era tão pequenina que via a estrada bem esticada para a frente, e como o banco estava bem esticado para trás, formava-se ali um V entre o banco ratado e a costas dela, que estavam vestidas por um pólo de homem, ela era tão pequenina que procurava a estrada a espreitar por cima do volante, às vezes cansava-se e tentava espreitar por entre o volante, naquela meia-lua, achei piada quando lhe disse “ali, é à esquerda” e ela fez como o meu gato à procura das moscas, esticou o pescoço e fez assim muito depressa com a cabeça, à caça da saída à esquerda, depois disse “é à direita” e foi a mesma coisa,
para a minha casa vai-se por um estrada muito grande, é sempre em frente, se apanhamos um autocarro estamos bem tramados, não dá para ultrapassar porque vem sempre gente de frente, desta vez não é o autocarro, é uma carrinha branca, diz “Frutas Ferreira” nos lados, vai muito devagar, acho estranho, estas carrinhas comerciais são guinadas por homicidas, esta vai devagar, mais intrigante: de piscas ligados, eu, feito tonto, digo assim para a taxista: “aqueles devem estar com medo de esborrachar as meloas”, nós não tínhamos falado ainda desde o ínício da viagem, achei tanta graça àquilo que não resisti a fazer a piada, ela olha para mim e responde-me desprezo, uma piada tão boa e nada, nunca na minha vida metera conversa com um taxista, são sempre eles, na primeira vez foi nada,
entre nós e o “Frutas Ferreira” vai uma arca de gelados Olá puxada por uma moto, montada por uma mulher, portanto o enredo é este: nós, a arca de gelados Olá e o “Frutas Ferreira”, todos assim em comitiva, com o líder à frente a fazer pisca, ainda me lembrei de fazer uma piada com os carros quando vêm dos casamentos, mas achei melhor não abusar do humor com esta senhora, meia hora depois o “Frutas Ferreira” vira à direita e começo a ver que tinha uma corda atada na traseira, afinal o “Frutas Ferreira” vinha devagar porque ia a rebocar os gelados, quando os passamos reparo que a corda estava ratada, mais cinco minutos e morria com a arca espatifada em cima, mas não morri, mas também se morresse ela morria primeiro, porque ia de cabeça esticada à procura da estrada,
o que não disse ainda é que o carro é um Mercedes, velho, há uma subida grande para a minha casa e o Mercedes quase vai abaixo, começa a andar a cinco à hora, numa recta a subir longuíssima, estou bem tramado, estou, penso eu, já não me bastava a fruta e agora isto, mas a animação volta depressa quando, de repente, o carro que vinha atrás começa a ultrapassar-nos, era um Fiat todo escavacado, que não andava a cinco, andava a seis, de modo que acho engraçado ver os dois fogareiros picados na subida, quando chegamos ao semáforo põe-se ao lado outro carro, era um branco a ouvir música africana aos gritos, ele era novo, mas já tinha a boca e as orelhas todas escavacadas de brincos, levava um chapéu, onde tinha a cabeça cuidadosamente encaixada, tinha um crucifixo pendurado no espelho, a minha taxista também tinha um, de modo que achei piada que naquele ponto do Universo infinito duas pessoas se juntaram num semáforo com o Cristo pendurado, duas pessoas tão diferentes, dois parêntesis na normalidade, uma mulher em profissão de homem, um branco em papel de negro, dois parêntesis assim como este que aqui vos escrevo, o humor dos outros metido à força entre a minha tristeza.
5 comentários:
Que post lindíssimo, um relato fantástico. Adorei.
O que eu gosto que tu andes de taxi...
Último parágrafo genial...
Muito bom! Andar de táxi parece ser um poço de textos humorísticos. De quem será a culpa?
Este post prendeu-me a atenção do princípio ao fim... devorava mais linhas, parágrafos e páginas, caso fosse um livro... Contentarei-me com os outros retratos da vida privada que espero que por aí venham. Adorei!
Beijos, flores e estrelas *****
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