Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

O português médio e o horror que sente do vazio

No primeiro ano, a garagem do prédio só tem carros. Depois, há um pioneiro que traz qualquer coisa para pôr ao lado do Renault ou do Seat. É só o início. O difícil é começar e ganhar balanço. Nos meses que se seguem, a pilha começa a encher...

Caixas, caixinhas, caixotes, caixotões, uns dentro dos outros aos encontrões,

ferros e ferrugem, ferros de engomar e ferramentas de consertar,

sacos, saquinhos, sacolas e sarapilheiras, cheias de batatas que trouxeram das Beiras,

garrafas, garrafinhas e garrafões, que ajeitam entre os melões,

peças de tudo, disto e daquilo, gostam de guardar para um dia reutilizar,

roupas, sapatos e plásticos, brinquedos, bicicletas e elásticos,

vasos, frascos e martelos, papéis e jornais amarelos...

O vizinho do lado, carcomido até aos ossos pela necessidade de um hobbie, vê ali uma oportunidade e começa também a acumular tralha no seu lugar da garagem. Se este faz porque é que eu não faço também, pensa. O tal pioneiro, até aí em agonia, a viver na angústia do que os vizinhos hão-de pensar, sente neste seguidor um sinal de que não só não foi censurado, como será apoiado.

Com dois vizinhos a acumular tralha, o terceiro sente-se encorajado e vai também. Três vizinhos é o sinal secreto para o prédio todo, o fartar vilanagem para o passatempo preferido do português médio: ocupar o vazio.

Depois, com tanta tralha acumulada, chega-se a um ponto em que é necessária alguma arrumação. Mais uma vez, vem um pioneiro. Começa por pôr uma placa de madeira no chão, como fazem os lojistas à porta da mercearia em dias de inundação. Nesta caso, é para disciplinar a tralha, não vá começar a escapar alguma coisa para debaixo do carro. Mais tarde, já sem espaço em baixo, faz como nas cidades modernas: começa a crescer para cima e constrói arranha-céus. Neste caso, são as prateleiras, que gosta de colocar aos dias de semana depois da meia noite, quando há menos movimento e corre menos riscos de ser apanhado de berbequim na mão.

Mais uma vez, este pioneiro fica na angústia. É que a tralha ainda se pode tirar se houver espiga. Uma prateleira é outro campeonato. Tem furos na parede, parafusos, a estética é alterada, enfim, nunca se sabe se um dia o arquitecto não aparece aí e processa a gente... Ou então são os vizinhos. Nunca se sabe se os sacanas não se juntam todos numa reunião secreta de condóminos em que o ponto único da ordem de trabalhos é tramá-lo, humilhá-lo, fazer queixa, expulsá-lo do prédio. Uma angústia de morte... Mas umas semanas depois, o vizinho do lado também faz prateleiras e a agonia acaba. Em poucos dias recupera o sorriso, ganha vários quilos e anda no prédio de cabeça levantada, a dizer bom dia, boa tarde e boa noite.

Isto, na garagem. Em casa, o princípio é o mesmo. Uma parede despida, só com um quadro? Um horror. Não perdem tempo e encostam móveis com vidros e mini-bares mal bebidos, bengaleiros e chapeleiros, cadeiras, vasos e prateleiras. Se têm uma varanda, não a desfrutam com um sofá, uma espreguiçadeira, livros e muita bebedeira. Preferem ocupá-la com tralha. E depois fecham-na com uma marquise, para proteger do friozinho, da chuvinha e do solzinho, que aleija a cabecinha das criancinhas e estraga muito a tralhazinha.

O português médio é assim: tem um ódio de morte ao vazio.

No fundo, só é feliz se tiver tralha para ostentar. Enquanto não tem o seu pé de meia de tralha vive na angústia de ser um falhado. A tralha representa para a comunidade onde se insere o seu passado de homem de sucesso, homem ocupado e viajado. Não ter nada acumulado é um sinal claro para todos: nada bebi, nada comi, nada guardei, nada comprei, nada viajei, de nada ri, de nada chorei; no fundo, nada vivi.

13 comentários:

Sayuri disse...

O português médio ainda não sabe que 'small is beautiful'

A Gata Christie disse...

Pelos vistos, a minha vida está cheia... De nada!

Tenho um miminho para ti no meu blog.

mjoaob disse...

sou pelas almas cheias. O resto? é só para ganhasr pó

A.G. disse...

Belo poema!
Interessante prosa!
Verdades que incomodam...
Gosto...

Cor do Sol disse...

A visão do inferno. :P

No entanto, eu devo ter um médio dentro de mim porque gosto de espalhar fotos por todo o lado. Gosto do que e quem me fazem lembrar.

Felina disse...

E eu que tanto quiz ter uma garagem e não tenho.. há gente sortuda...

lilipat2008 disse...

Estás tão certo que até faz impressão...quantos mais anos se vivem numa casa mais tralha se acumula...grrrrrrrrr

bjs

Marta disse...

Confesso: Há uma portuguesa média em mim... A minha casa é pequena, mas ampla e clara. tenho poucos móveis, nada de tralaha em cima deles, mas em compensação... Tenho uma arrecadação onde mal posso entrar. Há lá coisas que já nem me devo recordar que eixistem. De vez enquando num ímpeto de loucura prometo livrar-me da tralha, das paretleiras, dos caixotes... Promessas, promessas...

Debbie disse...

No limite, é também um 'problema' de identidade, em que a mensagem implícita é: Se eu me despojar das MINHAS coisas deixo de saber quem sou. É o 'security blanket' das pessoas crescidas e, apesar de perceber a ironia, não tem só a ver com a classe média.

Já tinha saudades de um texto deste género.

B. disse...

Isto é bem verdade:P *

XS disse...

Texto absolutamente genial. E verdadeiro, infelizmente...

Green Eyes disse...

pronto... o último parágrafo explicou-me o porquê de algumas pessoas engordarem imenso com o passar dos anos... devem estar a ostentar a "riqueza"!

gostei especialmente da parte em que "ele" fica em pânico até ser imitado :)

Este Blogue precisa de um nome disse...

Deumalibre, odeio tralha e caos!!!

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