Sábado, 13 de Junho de 2009

Assim se declara a morte da noite de Santo António

Desço a avenida, a olhar as marchas por cima das cabeças, a polícia cerca a avenida, polícia por todo o lado, tanta polícia, meu Deus, a guardar grades, putos e velhas, vontade de chegar ao pé de um polícia e perguntar “oiça lá, vem cá a Madonna, é?, e havia um polícia a guardar uma paragem de autocarro vazia, vontade de lhe perguntar “então, a paragem está-lhe a dar muito trabalhinho?”, e depois as claques das marchas, que engraçadas, um beto chega-se ao pé de uma dessas claques e diz aos amigos “ficamos aqui e os gajos começam a gritar ‘e a Mouraria é que é’”, e os amigos ficam contentes, não é todos os dias que entram em contacto com “as pessoas” que vivem nos bairros históricos, sentem-se como se estivessem no estrangeiro, e a claque começa mesmo a gritar:

“E a Mouraria é que ééééééééé...
E a Mouraria é que ééééééééé...”

Para logo de seguida...

“E esta merda é toda nossa, olé, olé!
E esta merda é toda nossa, olé, olé!”

Há quem veja nisto ordinarice, eu não, eu tenho carinho pelos habitantes dos bairros históricos, são os únicos lisboetas que restam, têm de ser preservados, como os linces e os pandas, aquele “esta merda é toda nossa” é uma libertação, é uma revolta, ainda que consentida e temporária, é uma ilusão de liberdade - nós, que vocês acham que somos das barracas, nós, por uma noite invadimos a vossa sala de visitas, tomamos a Avenida de assalto, e que se fodam vocês todos porque esta merda é toda nossa...

Continuo a andar, ando e para trás vai ficando gente estranha, muito estranha, sinto-me Darwin a cartografar espécies novas, brancos de bigode com mulatas de cabelo esticado, chineses betos, estrangeiros em duplas de gays, filhos adolescentes tão gordos, tão gordos, que têm maminhas maiores que as da mãe, e homens de camisas de alças, com o peito a sair, os pêlos vieram ver as marchas também, e dois homens a discutirem, diz um “mas o que é que tu vês na gaja?”, e o outro responde “mas eu só tolero a gaja até certa hora”, já não oiço a contra-resposta, e depois comecei a ouvir um maluco a gritar do outro lado da rua, andei um tempo à procura dele, não o via, e afinal ele estava mesmo ao meu lado, ele gritava e a voz começava do outro lado da rua, só depois é que vinha ter com ele, achei aquilo muito engraçado, porém um bocado estranho,

e no fim da Avenida está sentada uma noiva de Santo António, uma Kátia Raquel qualquer, reconheci-a do casamento que deu de manhã na televisão, ela ainda com o vestido, sentada na berma da estrada, de pernas abertas, tão gorda que era o dobro do noivo, e ainda por cima estava inchada do copo-de-água, a falar mal da Câmara e dos outros casais, e o noivo, coitado, triste, chupadinho, tímido, enforcado, estás tramado, estás,

depois, vem a manada de adolescentes, ficar em casa nos Santos nem pensar, que vergonha!, têm de sair nessa noite, e reúnem-se todos, são os Santos como podia ser outra coisa qualquer, não fazem ideia de quem é o Santo António, vêm em grupos, da Cova da Moura e da Quinta da Marinha, centenas e centenas, elas de mini-saias, com os peitos de fora, pernas forradas a collants, chamam uns pelos outros aos berros, guicham, insultam-se, saltam de banca em banca, em cada banca uma música diferente, nenhuma portuguesa, nenhuma típica, não têm mãos a medir com tantas discotecas diferentes na rua, e depois mijam nas esquinas - desculpem a linguagem, mas os selvagens são mesmo assim: não urinam, mijam - ou então põem-se nos muros e mijam em grupos lá para baixo, para quem está a assar sardinhas, e depois riem-se, abanam mal as pilas, enfiam-nas para dentro das calças e secam as mãos no cabelo, e depois metem a boca em tudo, uns nos outros e nas garrafas, nas ganzas e nas unhacas, partem copos nos pés e nas cabeças uns dos outros, viram as máquinas fotográficas para eles próprios, encostam a fronha uma à outra, deitam a língua de fora como os papa-formigas, e lá sai a foto, cheia de flash, um flash tão grande que o pus das borbulhas fica todo branquinho, e ficamos nós a olhar esta gente no apogeu do acne e a pensar no que alguém disse um dia, que a juventude é demasiado preciosa para desperdiçar nos jovens.No dia 15 de Agosto de 1195 um tal de António nasceu numa casinha ao pé da Sé de Lisboa. 813 anos depois, em nome de um padre franciscano, a escumalha de Lisboa e arredores reúne-se para libertar os fluídos corporais acumulados ao longo do ano, para gritar aos quatros ventos a sua condição de selvagens.

Jantei na casa de um amigo, rodeado de umas vinte pessoas, tudo ali por volta dos 30 anos, tudo gente civilizada, ninguém mal vestido, mas também ninguém excessivamente bem vestido, ninguém mal encarado, mas também ninguém excessivamente descontraído, falava-se de futebol, política e trabalho, aqui e ali devia ter-se falado de amores e desamores, mas não ouvi, e duas crianças, bem comportadas também, as sardinhas gordas, os pimentos bem assados, as ameijôas casadas com o limão e os coentros, a música boa, mulheres bonitas. Saí por volta da meia noite e tal, apesar dos protestos simpáticos do anfitrião e da cara de desdém dos restantes perante o local onde ia, a noite de Santo António in situ. De facto, há três anos tinha lá ido e saí rapidamente, e voltei a cometer o mesmo erro.

A noite de Santo António de Lisboa está cada vez mais entregue aos selvagens. Aconteceu o mesmo que ao Bairro Alto: a civilização começou a deslocar-se para outro lado. A barbárie tomou de assalto aquilo que era nosso, levaram-nos a noite de Santo António. E agora somos obrigados a festejá-la em casa de amigos ou a procurar becos onde nos aninhamos, como nos condomínios, longe dos animais.

O Santo António ainda é bailarico e gente castiça, são as sardinhas e o vinho, é a broa e o manjerico, é o fado e a batata assada. E somos nós, que gostamos de Lisboa o ano inteiro, e não fazemos de conta que gostamos dela para a tratarmos como uma meretriz de noite única.

22 comentários:

Vanita disse...

Gostei do teu olhar...

Icon disse...

bom texto!

Shallowmaniac disse...

Para esse ambiente mais tradicional, aconselho ir para o Baile de St. Engrácia (como o nome indica,lá para os lados da Graça). Música popular portuguesa, à boa maneira tuga (com organista;)e mesas corridas de gente a comer sardinhas no pão.
Fui o ano passado e adorei. Mais calminho e tradicional e Imperial a 1 Euró! Tudo o resto também é muito agreste para mim.

Abobrinha disse...

... queres experimentar o São João, a ver se melhora?

Vee disse...

como te percebo

Miguel disse...

apesar de uns quantos olhares críticos com os quais não concordo, a verdade é que assino por baixo no que aos "selvagens e animais" a que te referes. Assusta-me pensar que o meu futuro possa depender de gente com tão pouca educação e tão pouco respeito com aqueles que não fazem parte da sua "tribo". É triste ver o que resta das nossas características populares achincalhado por gente desta. Pena é que a polícia, mesmo em grande número, estejam de mãos e pés atados para pôr cobro a situações similares. Podemos não gostar de bailaricos, de música pimba, mesmo das noivas de Sto António, mas respeitar as nossas diferenças culturais, económicas, raciais ou mesmo de extractos sociais, são os fundamentos básicos para uma vida em sociedade. Um abraço.

Bailarina disse...

Ainda bem que no nosso S. João as tradições ainda estam mais ou menos iguais... 8)
Bjinho*

mjoaob disse...

Ainda tinha pensado voltar das férias mais cedo a lisboa. Estou a ver que ainda bem que não o fiz. Há anos que não vou aos santos mas confesso que a paciência e a idade já não permitem certas coisas.
:)

SLZ disse...

Detesto os Santos Populares..
Tenho fobia a multidões..

O teu texto explica o porquê!

Ana Coke disse...

Tenho sempre que me rir com as tuas descrições. =)

O ano passado estive em Lisboa por esta altura e levaram-me para a Bica. Encontrei lá o ambiente saudável que descreves no final do teu texto. Boa gente, nada de animais =), boa sardinha, boa música (popular e típica destes dias), bom vinho, boa sangria... foi uma noite muito bem passada e que me fez apaixonar ainda mais por Lisboa. ;)

Patrícia disse...

ainda assim gosto dos santos e gosto da noite. mesmo que tudo isso que dizes se veja, também há o resto. quem se senta à porta a ver quem anda na rua, quem sem nos conhecer, nos receba em casa como se família fossemos. Qum como nós goste da cidade e do santo que ela deu.

Claudia disse...

Pois, cometi o grande erro de ter saído para festejar o Stº Antº e ter-me deparado com bandos de selvagens e nada de bailaricos, apenas ouvi música brasileira e martelinhos!!!! Tudo doido!!!

Green Eyes disse...

Bem eu não tinha ido às festas, sim não tinha ido agora já fui... As tuas descrições fazem-me estar lá, até me enjoei com o cheiro...

Palavras disse...

Um dia hei-de ver as marchas, o bailarico e o fado em Lisboa! :) Por enquanto fico-me pelo S. João, seja na minha terrinha ou na terrinha dos outros! E gosto! Gosto da agitação, da animação, das sardinhas, do vinho, dos manjericos e dos martelos! Aiii....as saudades que tive agora das festas do Povo!

alfabeta disse...

O Santo António festeja-se em todo o país, mas em Lisboa é que é! Olá, Olá!!!!

lol

Sofia disse...

Gostei e declaro-me a quinquagésima seguidora do teu blogue.

Intruso disse...

número redondo, seguidora esguia, espero

bjs

Girstie disse...

A tua descrição é fantástica.

Cá no Porto não há marchas, há o alho porro e o martelo mas de resto é muito parecida e com muita confusão!

Blanche disse...

pois é...

Santo António (ou Miguel, se preferires) disse...

Que giro...
és tão superior e no entanto censuraste o comentário no qual eu te explicava que esse elitismo é ridículo.
Repito: Lisboa é pequena demais para ti, os lisboetas insignificantes, então... vai-te e faz-te à vida onde sejas tão grande com a cidade que te acolher, tão inteligente como o povo com quem privares.

Isandes disse...

gostei.
fui pela 1ª vez o ano passado às marchas e achei 1 treta. Bairrismos à parte, axei k faltava a emoção das marteladas e o espirro suscitado pelo alho pôrro (k raio, é assim k se escreve? na sei mm...) do s.joão.
olha, diz lá aos teus amigos trintões k podem pasar chez mon blog pa preencher 1 "fichinha" (espreita e publicita com estima, se te aprouver~; otherwise, insulta-me, who cares? lol). adeus

Ana disse...

Bem, estou a ver que a tua noite também não correu lá muito bem...
Eu andei sempre desencontrada, sempre à procura desta e daquela pessoa até às 4h...lol
Foram os primeiros santos que passei em Lisboa e não era bem do que estava à espera, vamos lá a ver po ano... ;)

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