O meu cabelo deixou de ser rebelde. Antes, principalmente depois de o cortar, era indomável. Agora, é manso, deixa-se cair, não se eriça, está dócil.
Quando subo escadas rolantes pela esquerda e alguém está parado peço licença. Antes, não dizia nada; ultrapassava a pessoa pela direita e dava-lhe encontrão com o ombro de propósito. A cidade para mim já não é um palco de guerrilha. Já não tenho paciência para guerras cobardes. Por isso já não empurro ninguém nas escadas rolantes.
Há duas semanas que ando a dormir seis horas por dia e aguento-me. Se fosse antes, já estava morto. Digo isto porque ouvi dizer que quanto mais velho menos horas se dorme. Ou menos horas se aguenta a dormir.
Quando os taxistas têm a música muito alta, peço para baixar. Quando têm a janela aberta, peço para fechar. Antes, aguentava porque não queria incomodar. E antes alimentava a conversa que eles puxavam para não ser indelicado. Hoje já não faço fretes. Se quiser falar, falo. Se não quiser, não dou corda, desculpe lá, mas é por favor àquele sítio e deixe-me lá estar sossegado no meu canto.
Antes, quando um gordo se sentava ao meu lado no autocarro ou no metro encolhia-me. Agora, deixo-me estar. Já não me encolho.
Antes, entrava nos autocarros e nos cafés e sentia os olhares das pessoas cravados em mim. Hoje também sinto, mas sei que só olham para mim porque sou uma novidade que está a entrar. E sei que naqueles instantes tenho de “representar” o melhor de mim. Entro confiante, determinado. É por isso que gosto de entrar nos restaurantes com mulheres bonitas. A fazer de conta que são minhas para as outras pessoas pensarem que sou o maior. Tudo encenado, claro, que sempre fui um bom actor. Só que agora mais experiente. E depois puxo do cigarro como nos filmes, para pensarem que sou como o Robert Redford ou Clint Eastwood. É por isso que não gosto de restaurantes para não fumadores. Fiquei sem um dos meus truques.
E por falar nisso, antes não sabia como me comportar nos restaurantes de luxo. Tinha medo dos empregados, do que pensassem de mim, eles que estão habituados à fina flor. Tinha pânico dos meus movimentos. Hoje sei como me comportar. Naturalmente, quase como numa taberna. E acho os empregados tão simpáticos e solícitos que os vejo como uns chatos de merda. Não quero, por favor, que me venham à mesa de cinco em cinco minutos a perguntar se está tudo bem. Não quero que fiquem a um canto a olhar para mim fixamente à espera que precise de alguma coisa. Vão à vossa vida, sim? Vocês já não me intimidam. Não vêem que estou a ficar um homenzinho?
17 comentários:
Talvez não seja bem a icar um homenzinho! Talvez seja mais tomar atitudes de outra forma, que antes não faziam assim tanto sentido. Talvez coisas como a paciência estejam mais limitadas, e mostrar mais aos outros a tua vontade, com uma calma mais serena, conquistada por vivências e momentos.
Há homenzinhos que continuam autênticas crianças! E há crianças que se fizeram homenzinhos num instante!
Boa semana!
Bah, excluindo a cena do cabelo, acho que isso significa que estás a ficar mais maduro.
Tem cautela... Parece-me que estás a deixar de ser um "intruso". :)
:o) Muito bom! Adorei este Post.
*
Bom, mas isto significa que te sentes melhor contigo próprio ou que estás mais amargurado em relação aos outros?
(Mera curiosidade intelectual ou, se quiseres, uma pergunta com estima)
Both :)
Eu acho que deixamos de ter paciência para certas coisas, e principalmente deixamos de ter necessidade de estar sempre a agradar. Talvez seja sinal que estamos a "crescer" e nos sentimos mais seguros de nós, talvez seja porque nos tornamos mais egoístas, não sei bem.
Também deixei de fazer algumas dessas coisas, mas... davas mesmo encontrões às pessoas nas escadas rolantes?? Dava um título bom: rolando pelas escadas rolantes...
:)
:)
Um homenzinho com um grande sentido de humor... nem tudo é "inho" :)
Beijos
sim... :)
Estás a deixar de travar guerras contigo. É isto.
tás crescido!
Dizes k tens 31, né? Essa maturidade advém do saturno já ter passado por ti (diz ké disto, keu astrologia é + bolos, mas bate certo pela minha experiência, recente, keu inda sou chavala).
Agora é k tou a reparar..."Acatar com estima o insulto" - é obrigatório insultar-te? eu cá não digo caralhadas...
Para que precisas do cigarro, mesmo? :p Acabo de descobrir o "Acatar". E com acato escrevo que não terei que fazer muito esforço para voltar. :-)
wellcome...
Isandes: fartei-me de me rir com esse comentário :D
:)
Enviar um comentário