Amanhã vai-me apetecer outra coisa, mas hoje apetece-me isto:
"Às vezes vou passear com outros e no fim duma hora acordo persuadido de que tenho conversado muito. Na verdade tenho ido mudo: a conversa tem sido comigo, sempre comigo, destacada, feita de pedaços, e não sei discriminar onde começa o sonho e acaba a realidade.(...)
É sempre a mesma coisa há meses, a mesma ansiedade sem causa, que não sei de onde provém. Parece-me que espero uma desgraça desconhecida, uma catástrofe que ignoro - e que nunca chegará. Vivo alheado, o cérebro espalhado por todas as coisas: apenas esta inquietação me domina e enche. Se saio do sonho não sei viver.
(...)
Sucede-me às vezes ir pela rua fora e ter a impressão de que toda a gente parou a olhar-me. Não me volto para não endoidecer, porque tenho a certeza que dava com a multidão parada, imóvel, a olhar para mim, não com a cara indiferente com que fingem não me conhecer, mas com a outra dolorosa, com a cara trágica da verdade com que as encontro no sonho.
(...)
Resta-me isto: habituar-me à vida: habituar-me ao ponto de não ouvir, de não ver, habituar-me até a aplaudir. Roçar-me pela vida prática até ficar, ao seu contacto, idêntico a todos.. Encher a alma de palavras, de frases aprendidas, de sentimentos falsos, de crenças usadas e banais. Ser toda a gente. Sorrir ao que os outros sorriem, admirar o que eles admiram... E no entanto, se me vejo assim, se me visiono daqui a anos asssim - recuo de pavor... Ali está sobre a mesa a pistola aperrada. É melhor morrer, estoirar o cérebro, onde resta ainda um vestígio de sonho, do que acabar daqui a anos, esvaziado e grotesco como uma bexiga rota..."
Raul Brandão, "Diário de K. Maurício"
1 comentários:
Há gente que sabe mesmo dizer as coisas. Parece fácil quando se lê, ficamos a acenar com a cebça e pensar "é isso mesmo" mas desmoraliza... Eu devia era estar quietinha, que quem sabe das letras são estes senhores.
Gosto.
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