Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

“As mulheres têm fios desligados”

Achei agora mesmo esta crónica do Lobo Antunes, perdida entre jornais e revistas atrasados. Deixo-vos com o mestre. Bom fim-de-semana. Vou passá-lo a empaturrar-me em bolos e livros."
Há uns tempos a Joana
- Pai, acabei um namoro à homem.
perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
- disse-lhe o problema não está em ti, está em mim

o que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti!
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a refectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou mas foi
- Amandei-lhe aquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe

e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia-a-dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)

ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas, pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é pensar que durante uma semana estou safo

e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
- Não quero mais

aí estão eles a alternarem a agressividade com a súplica, ora violentos, ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS, a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores, eles que nunca mandavam, a colocarem-se de plantão à porta, dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos.

A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, Che Guevara ou eu, e eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham.

Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhes caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persianas-mal-descidas-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escitores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim

a mexerem a faca na mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Schubert. De Ovídio. De Horácio, de Vergílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.

Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca. Volta e meia surge-me na cabeça uma frase do Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde de mais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres, etc, que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma mulher contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.

Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua.
- o que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que façam falta
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.

Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que vi na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.
"

14 comentários:

LA disse...

Ainda bem que fizeste esta descoberta.

Bom Feriado.

Pinipóne disse...

:)
Pois é, mas olha que nós mulheres também conseguimos bem desgastar, esmagar, cansar, deprimir qualquer ser. As novas adolescentes, penso que estejam a trocar de lugar com os antigos rapazes, agora são elas a dizer "o problema não és tu, sou eu" ou então mais à bruta.

Beijinhos

Intruso disse...

sem dúvida...

Pinguim Alegre disse...

Obrigado pelo comentário!

E obrigado pela crónica! :)

Um abraço

april disse...

Obrigada por agora poder reler isto com facilidade, sempre que quiser.

Intruso disse...

ora essa...

Margarida disse...

Ah, eu lembro-me disto, saiu à uns meses na Visão. Foi dos melhores textos que li sobre o assunto, sem dúvida!

Menina do Mar disse...

Realmente este senhor quando escreve...
Se não fosse por mais nada, este texto teria bastado para poder dizer que gostei do teu blog ;)
*

Intruso disse...

merci...

Maria Papoila disse...

Que bom encontrar o meu escritor favorito no meu blog favorito... Diz lá que o Nobel não ficava melhor nas mãos deste senhor?

Intruso disse...

ficava sim senhor, maria papoila

bjs

spritof disse...

Fabuloso texto...
...deu-me ideias...

Intruso disse...

"deu-me ideias"???

Querem ver que já contribuí para uma separação?

boa!

A disse...

Lindo...


vou "roubar".

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