Andar de Metro aborrece-me e por isso gosto de levar uma revista para ler. Mas hoje não consegui ler nada. Comecei, interrompi, voltei, não fui capaz de continuar. Enrolei a revista e pus-me a olhar. Hoje havia demasiada gente interessante para ver.
Duas miúdas, dezoito anos, por aí, não eram lindas, mas eram vistosas, nariz grande, cabelo comprido, bem tratado, lascivas nos olhares entre elas, levantavam a mão direita e batiam uma na outra, e riam-se com dentes brancos, meio Lolitas meio devassas, e os homens à frente a imaginar as duas deitadas, deviam cheirar bem de certeza, não muito altas, bem vestidas, confiantes, cheias de sonhos e de rapazes na cabeça, impossível desviar o olhar delas.
Um homem, quarenta anos, sujo, cachucho amarelo no dedo, aliança no outro, fio de ouro ao pescoço, t-shirt preta a dizer a branco JD2 Division, entrou a cantar, sentou-se a raspar uma raspadinha que dizia Mealheiro e tinha um porco cor-de-rosa, raspava com a chave de casa, presa por uma fita vermelha que dizia Sony, tinha cara de pugilista e ténis grossos, largos, para não aleijar os pézinhos.
Passa à nossa frente uma mulher enrolada num vestido verde berrante, pano azul claro à volta da cabeça, uns 30 anos, pele de chocolate, nariz pequeno, sandálias brancas, apanhou o Metro em Maputo e saiu em Sete Rios.
À direita, uma rapariga, vinte e tal anos, bem vestida, simples, discreta, com bom gosto, cores neutras, verde tropa na camisa, calças de ganga, tudo a combinar, portátil na mão, óculos escuros grandes, nariz aquilino, não muito bonita, tinha um decote tão grande que se sentia o coração a respirar no peito descomunalmente grande, onde se viam as veias azuis, vivas de sangue, a arfar naquele sítio quente onde o Diabo fica emboscado, ali naquela covinha do meio, entre as duas montanhas cor-de-rosa de carne, e via-se o soutien, preto, tão pequeno que a carne do peito lhe escapava das mãos, ela respirava e o peito saía mais um bocadinho, e os olhos dela observavam tudo, como eu, por isso não trocámos muitos olhares porque os que observam são como os Imortais, sentem-se uns aos outros e evitam-se, porque sabem que quem sabe olhar os pormenores sabe tudo de nós, e nós não queremos ser apanhados nas armadilhas que pomos aos outros.
Ao lado do que entrou com cara de pugilista a raspar no porco cor-de-rosa sentou-se um senhor de idade, no bolso tinha duas cadernetas da Caixa, bem vestido, muito bem vestido, velhinho, cansado, bonito, tão bonito que acho que nunca vi um velho tão bonito, tinha uma pele de cabedal, dura e lisa, os olhos pequeninos, rasgados, parecia aqueles velhinhos que se vêem nos arrozais do Vietname, sentou-se ao lado do pugilista, ficaram os dois muito apertados, o da cara de pugilista nem se mexeu, o velhinho é que se encolheu todo, mas um minuto depois o pugilista lá se mexeu e os dois aninharam-se um no outro, o pugilista de volta da raspadinha, a olhar para ela, à procura do prémio que não tinha, quem sabe não há uma segunda oportunidade, pensava ele, com vontade de começar de novo, sentir a esperança antes da desilusão em que agora está, a olhar para o vazio, que no Metro é o mapa das estações, e o velhinho com os olhos fechados, a dormir um bocadinho, com aquele ar tranquilo, aliviado, de quem já cumpriu a sua missão, de quem olha para os outros e sorri, porque já viveu aquilo, já cometeu aqueles erros, já traiu e foi traído, já viveu todas as paixões, ou não viveu nenhuma e já se acomodou à secura, e acha ridículo o medo dos mais novos antes de darem um passo, tomarem uma decisão, pedirem em namoro ou acabarem uma relação que se arrasta, um velhinho que se enternece com os risos das raparigas de dezoito anos que levantam as mãos, sonham com rapazes, cheiram a morango e têm cabelos bem tratados, daqueles que ainda não secaram naquele vento frio que se apanha à beira-mar.
13 comentários:
Este é um dos lados do teu “eu” de que o meu “eu” gosta :)
AnB
:) tás fofinho hoje, gosto.
São locais como o metro-há e haverá outros - que nos permitem observar o comportamento humano. E nada mais enriquecedor que isso. Eu, pelo menos acho. Gosto das subtilezas e dos pormenores grosseiros, gosto daqueles pequenos senãos que, de vez em quando, as pessoas trazem escondidas no "bolso", e mostram quando menos esperam. Porque não há nenhum ser- protótipo; são as diferenças que fazem toda a diferença...
Beijinho e obrigado por teres passado pelo meu blog, deixando o teu comentário.
Bom sábado!
Já fiz viagens assim... Sem dar conta do tempo, apenas a "ver" os outros. Não me lembro de nenhum dos meus "observados", mas lembro-me que me levaram longe. Gostei muito, por isso, "olha" mais e conta tudo. Obrigada, por este texto. Gosto muito.
Bem, não estava mesmo nada á espera de um texto assim, confesso.
Comecei por baixo, li alguns textos completos, saltei outros que só li os títulos, e tenho mesmo que admitir que me fizeste sentir mal. Mal comigo mesma. Eu não quero ser esta pessoa... tal como dizes no post onde falas da Susan Boyle (alguém de quem eu por acaso nunca tinha ouvido falar antes) deixei-me surpreender por este post, porque te julguei logo á partida por meia dúzia de títulos e dois ou três textos.
Não me deveria ter deixado surpreender, deveria ter apenas gostado (e como gostei!!) ou não do que li, sem ter feito juízos de valor por antecipação.
Continuação de bom fim de semana
Obrigado pelas críticas.
Aos novos leitores (as), não estranhem a bi-polaridade e não se choquem com alguma linguagem...
Mais vale isso do que tentar ser outra coisa qualquer que pareça melhor.
Bem, grande descrição. As minhas viagens de metro nao sao, nem por sombras, tao interessantes...
Sanxeri, são de certeza. É só uma questão de saber olhar :) bjs
Pela primeira vez, neste blogue, senti as tuas palavras. E ao contrário do que possas pensar, não foi pelo tema, mas pela leveza com que te deixaste que o teu coração respira-se, a paisagem, as pessoas, os ambientes, o libido ...Não é à toa, que recebeste elogios, tantos...mas num só texto...este não é o mesmo dos comentários, fúteis, inúteis, arrogantes, inseguros. Este foi um homem completo, seguro, com verdadeiro amor-próprio e estima pelo outro - que escreveu.
E ainda dizes que não gostas de andar de Metro. Olha, pena de não ter lá estado também a ver tudo isso, gosto de um belo decote e adoro velhinhos fofos.
Adorei o texto! parabens! confesso que "olhar" é uma actividade que me fascina e agrada...
beijinho*
olhar através do olhar dos outros é também um exercício interessante... foi como se estivesse na carruagem do metro a ver as pessoas através de um prisma diferente. gracias
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