Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Império do bonito

Uma das coisas que se aprendem nas escolas de jornalismo são os valores-notícia, ou seja, o que leva a que um determinado acontecimento seja notícia e outro não.

São os eles a "proximidade", a "notoriedade", a "relevância" e outras coisas do género.

As escolas de jornalismo andam muito desactualizadas. Esquececem-se de outros valores-notícia. As "pressões" (da administração, das agências, dos RPs, dos lobbies, etc, que impõem ou barram notícias) e a "estética".

Foquemo-nos neste último, pegando nos casos Maddie e no do recente sismo em Itália. Maddie tinha o valor-notícia "proximidade" (aconteceu no Algarve), "notoriedade" (filha de ingleses, ainda por cima com ligações políticas ao governo) e "estética". Porquê? Era linda, uma criança adorável. Teria ela menos destaque se fosse feia que nem um raio? Talvez. Eu digo que sim, teria menos destaque. Teria destaque, mas ser bonita foi a cereja em cima do bolo. Mas este não é bom exemplo.

Veja-se o destaque desmesurado que tem sido dado ao sismo em Itália. 200 mortos num sismo? Há casos na Ásia que provocam dez vezes mais mortos e têm dez menos destaque. Logo, não será o valor-notícia "relevância". Será "proximidade"? Talvez, foi em Itália, não muito longe daqui. Mas se o sismo fosse em Andorra, mais perto, teria o mesmo destaque? Claro que não. Então porque este teve? Porque o sismo de Itália destruiu uma vilazinha muito bonita, cheia de gente muito bonita. Comove muito mais ver uma igreja do século XVI destruída do que uma aldeia rafeira de pescadores, mesmo que a primeira não tenha caído em cima de ninguém e a segunda tenha desabado sobre gerações de gente matarruana. É o valor da "estética" e do fútil.

O jornalismo como reflexo da nossa vida actualmente.

2 comentários:

A disse...

Não podia concordar mais contigo...

'Mimi disse...

Sim a formulação dos cursos não é a melhor. Aprendo imensa coisa que nunca terá utilidade na vida profissional

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