sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
uma pergunta pertinente
mas depois as calças escapam-se pelos dedos da mãe e zás, a bacia do juvenil espeta-se no bico da escada, com a queda a mão do pai descola-se da camisa, mas o pai, rapidíssimo, ainda lhe agarra num braço, isto enquanto se equilibra com os sacos que leva na outra mão, chegam então as escadas ao fim, o miúdo já de pé e a chorar, olha para cima e o pai pergunta-lhe:
então, p'ra que é que foi isso?
fui à fnac comprar dezasseis euros de agustina,
depois, peguei na carne e fui à caixa pagar, onde fui atendido por uma mulher tão gira, tão gira, tão gira, e tão competente, tão competente, tão competente, e tão boa, tão boa, tão boa, e tão amável, tão amável, tão amável, que tive umas ganas enormes de lhe dar um murro no focinho.
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
recebi isto no mail
porque é que a salsa me trata por tu? não quero ser contactado, não quero saber as novas funcionalidades, não quero password, área pessoal, nem perfil, pontos, movimentos, ou comunidade salsa, nem da fama, muito menos da fama escrita em maiúsculas, num mail escrito numa linguagem imbecil, e também não quero saber de viagens a los angeles, a não ser que mas dêem sem me chatearem. de resto, da salsa só quero calças. queria esta deste número, posso experimentar?, vou levar, quanto é?, adeus e obrigado. não quero saber de mais,
como destas fotocopiadoras novas só quero fotocópias, simples, vou à máquina e escolho o tamanho, a cor e o número de cópias, não quero mais, mas tanto mais têm elas para dar agora...
como dos comandos só quero os botões dos canais e do som, e do ligar e desligar, e porque é que as pizzas têm tantos ingredientes diferentes, tantos tamanhos, tantas promoções e combinações de promoções? porque é que me estão sempre a perguntar se tenho cartão continente, se tenho cartão fnac, se tenho cartão disto e daquilo?, e porque é que, aqui no trabalho, quando imprimo uma coisa o computador me manda uma mensagem a dizer 'this document was sent to the printer', claro que foi, eu acabei de o mandar imprimir, eu sei que foi, qual é a necessidade de me dizerem que fiz uma coisa dois segundos depois de a fazer?,
e gostava que o computador novo que tenho em casa se limitasse a computar e que não me abrisse constantemente janelas por tudo e por nada, constantemente a avisar-me do que acabei de fazer e a alertar-me para o que de mal me pode acontecer, só queria um computador que não seja meu pai, que não me trate como uma criança, que não me peça passwords por tudo e por nada, e que não me divida em sub-computadores para diferentes utilizadores, porque é que os fabricantes de computadores supõem que a nossa vida é uma confusão e que desconfiamos de tudo e de todos, e que devemos ter os computadores protegidos, não, não desconfiamos, não, a nossa vida é simples e organizada, e se houver problemas a culpa é nossa, não se ralem connosco, somos tão crescidos, limitem-se a fazer coisas boas e simples,
porque é que toda a gente, todas as organizações, neste país e neste mundo decidiram ser uns grandessímos chatos?, não há mais ninguém que faça só aquilo que sabe?, que dê só aquilo que lhe pedem?, que diga só aquilo que lhe perguntam?, porque é que têm que acrescentar sempre qualquer coisa mais?, porque é que complicam?, porque é que não nos deixam em paz?
antigamente o mundo era tão mais simples...
pronto, já desabafei. vou comer uma queijada de leite a ver se acalmo os nervos.
isto se conseguir discernir uma queijada de leite entra os trezentos tipos de queijadas que há agora, enfiadas entre os trezentos bolos diferentes expostos nas trezentas pastelarias que há na cidade, quem disse que a liberdade de escolha e o mercado aberto são uma libertação dos indivíduos enganou-vos muito bem, tudo isto é a morte da comunicação por excesso e não é definitivamente o fim da história que prognosticou o hegel e o palhaço do fukuyama,
porque ainda é possível o modelo utópico de só haver uma pastelaria central em lisboa com uma qualidade apenas de queijadas, ah, isso sim, seria a minha felicidade extrema, uma pastelaria no marquês de pombal, com um largozinho, umas árvores, os velhos a jogar o dominó, eu a entrar e a pedir um café e uma queijada de leite, com aquela tranquilidade serena de quem sabe que em resposta não vai ouvir o 'que queijada quer? olhe, temos aqui, fresquinhas, queijadinhas de cenourinha, de cajuzinho, de limãozinho, de leitinho, de amêndoazinha, temos ainda queijadinhas de ovozinhos, de laranjinha, de requeijãozinho, de cenourinha e de cocôzinho...', sim, é possível acreditar que isto um dia vai acabar e que vou ser feliz.
isto hoje está mau...
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
confesso que
é-me particularmente difícil perceber como é que uma população que conquistou a sua independência à custa de tanto sangue e há tão pouco tempo se pode comportar assim em palcos onde a sua presença só é efectiva porque eles mesmo lutaram por ela e, repito, há tão pouco tempo,
devia haver, mesmo perdendo, muita alegria, entusiasmo, fervor e desportivismo, mas em vez disso houve insultos, cuspidelas e agressividade por todos os poros, por isso mudei rapidamente de desejos e torci pela eliminação desta bósnia, cujos adeptos explicaram extremamente bem porque é que os balcãs são o cancro da europa há tantos anos.
as cobras dos esgotos que jantaram com a minha coca-cola
acho que se a pepsi desse para desentupir canos ter-me-iam feito referência expressa nesse sentido. toda a gente me disse: 'usa coca-cola'. ninguém disse coca-cola diet, nem coca-cola zero, muito menos pepsi. foi coca-cola. isto pensei eu durante milésimos de segundos enquanto escolhia a marca. ainda me debati sobre o tamanho da garrafa (ninguém me falou na quantidade...), mas não vos quero maçar mais.
diga-se, no entanto, que optei pela coca-cola apenas por uma questão económica, havia lá uma coisa mesmo própria para os canos, mas custava quatro euros, e dar quatro euros em remédio para tubos é uma coisa que me faz confusão.
achei caro porque tinha acabado de comer uma pita shoarma por cinco euros e já vinha com molho branco, batatas fritas e tudo. acaso tivesse ido jantar ao gambrinus a história seria diferente - até trazia dois frascos deste laxante desentupidor porque a gente nunca sabe o dia de amanhã.
mas como fui comer uma pita no colombo por apenas cinco euros optei por desentupir canos com coca-cola, que só me custou um euro e tal. a vida não é isto mesmo, porra? o homem é a sua circunstãncia ou não é?
ou, como dizia o kierkegaard, 'a ética não dispõe de nenhum acaso, nem de nenhum velho servo'.
vamos ver se a sabedoria popular acerta com esta coisa da coca-cola para canos. estou fisgado que sim, que as velhotas nunca se enganam nestas coisas.
ps: se algum dos meus estimados leitores for agarrado ao dinheiro e gostar de borlas, fica aqui a informação que a coca-cola que despejei no cano ontem à noite vai desaguar na praia da cruz quebrada por volta das 11h30.
ps2: a citação de kierkegaard é só para impressionar. abri ao acaso um dos livros desse esbelto dinamarquês que tenho cá em casa (o 'temor e tremor'; também tenho 'o banquete', mas não gostei do título; 'temor e tremor' pareceu-me mais indicado para canos entupidos). abri então o livro e calhou na página 111, de onde transcrevi para aqui a frase que me soou melhor.
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
confesso que me ri
o fernando pessoa movia-se a bagaço e aquilo funcionava. hoje, quer-me parecer que há por aí muito escritor português a fumar coisas estragadas.
amanhã, a herzegovina vai jogar contra estes monstros...
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
bons tempos
nas oferendas ao novo papa, d. manuel enviou tecidos com tantas pérolas e pedras preciosas incrustadas que mal se conseguia ver o tecido, que era feito de ouro. outra das ofertas ao papa foi um rinoceronte, que foi enviado por barco. lamentavelmente, afundou-se. a carcaça do animal desaguou numa praia de marselha.
domingo, 15 de Novembro de 2009
a fifa acaba de suspender o maradona dois meses...
uma pessoa dizer 'chupem' é a mesma coisa que dizer 'proporcionem prazer aos outros'. ver no acto de chupar uma humilhação é uma parvoíce. nas nossas sociedades avançadas, chupar é altruismo, e sobrevivência, já agora, porque quase se pode dizer que quem não chupa não mama.
hoje toda a gente chupa e quase nunca nem é preciso pedir. faz parte. é como alguém dizer 'bom dia' e a outra pessoa responder 'bom dia'. só uma visão retrógrada é que pode permitir ver as coisas de outra forma.
ainda mais quando não se sabe onde é que o maradona mandou os jornalistas chupar. imagine-se que o maradona mandou chupar nos seios da prima. um tipo é suspenso por desejar o melhor aos outros?
o problema do maradona é que depois pediu desculpa a todas as mulheres do mundo. ou seja, denunciou-se. afinal ele estava a mandar os jornalistas chupar no pénis dele, do maradona, nos pénis dos colegas deles, ou, quanto muito, chupar nos pénis que há, hipoteticamente, na fifa. isso aí é que já não se admite. foste bem castigado.
o nome do novo blog está neste post
como se lê no título deste post, dediquem-se à pesca, se quiserem, claro. apanhem-me se puderem.
este novo blog é uma coisa mais pica, máscula, sobre a realidade política e a realidade das tabernas da minha rua, sobre as sarjetas e sobre os livros. ah, que descansem os meus colegas que não vou falar mal deles, nem bem, (até porque já não paciência, hein?), tenho coisas mais importantes para falar, como desentupir uma merda de um cano na casa-de-banho que não sei como.
brevemente acho que criarei outro blog, assim mais fofinho, bom para impressionar as gajas, assim de elas ficarem como um boi a olhar para um palácio.
um bera, outro fofo, assim como era o Acatar, que vivia de bipolaridades.
por falar nele, não sei bem o que fazer ao Acatar. acho que cumpriu o seu papel, mas tenho muita pena de o fechar, de o abandonar. ainda estou a fazer o luto e está-me a custar. estou a pensar meter-me na droga.
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
a problemática urbana do cocó de cão
antes de aflorar (por acaso vou mesmo falar de flores) o tema, devo referir que eu nunca toquei num cagalhoto de cão com as mãos, a não ser acidentalmente em brincadeiras de criança, mas foram sempre aqueles cocós já em forma de pilha alcalina, escondidos na relva, meio brancos e a desfazerem-se, ou seja, sequinhos, nem cheiro tinham.
nunca toquei com a mão num cagalhoto ainda húmido e quente, acabado de sair do recto de um pantufas, o máximo que toquei foi com a sola do sapato, que, como se sabe, é uma pele que a gente usa nos pés muito mais grossa do que a das mãos exactamente para prevenir este tipo de coisas que há nas nossas cidades. se fosse no campo, as formigas e as moscas devoravam tudo tão bem que depois lá no sítio nasciam muitos cogumelos, que as velhas apanham e usam nas compotas, agora nas cidades não há este tipo de fauna em quantidade devida.
daí que, nas cidades, os cagalhotos de cão não terem hipóteses de serem reciclados pela natureza. ou vêm os almeidas varrer ou vão agarrados nas nossas solas. o que quero aqui dizer é que esse transporte nos nossos sapatos é inútil, ao contrário do que se passa na natureza, onde, por exemplo, há o caso de algumas sementes que caem das árvores para os rios e mares e são transportadas para muito longe pelas correntes para colonizar outros sítios,
outro exemplo da natureza, que vem mais ao caso, é o daquelas plantas que abrem as pernas para serem fodidas pelos pássaros, deixam-se comer nos lupanares que montam nos galhos, ao mesmo tempo que, sub-repticiamente, injectam nos pássaros uma espécie de laxante ao retardador, os pássaros comem a flor e, umas horas depois, dão-lhes umas dores de barriga tais que cagam as sementes nos sítios para onde entretanto voaram, daí a lógica do laxante ao retardador, não fazia sentido o pássaro comer a semente e cagá-la logo ali ao lado, resumindo, o objectivo da planta é usar o sistema digestivo dos piu-pius como agente polinizador, isto aprendi tudo no bbc vida selvagem,
como os cagalhotos de cão não têm sementes é inútil o seu transporte nos nossos sapatos, ou seja, se o nosso cão se aliviou na avenida da liberdade não vale a pena limpar a sola no rossio porque não vai nascer lá nenhuma árvore de fruto. portanto, é inútil pisar merda de cão, além de que não cheira bem nem dá bom aspecto.
eu aprovo bastante esta técnica de levar o cão à rua e o dono apanhar-lhe o cocó, o que não deixa de ser irónico sobre o papel do homem, supostamente o chefe do cão, ou seja, o homem passou a ser o melhor amigo do cão e não o contrário, como se ensinava às crianças, eu se tivesse um tipo a apanhar-me os cagalhotos também o designaria de meu melhor amigo.
o que me faz impressão é que os saquinhos que os lisboetas andam a usar serem aqueles normalíssimos, que usamos no supermercado para meter as laranjas e os pimentos, aqueles saquinhos muito fininhos e transparentes.
então, o cão expulsa a sua poia e o dono agacha-se e vai lá com a mão enfiada no saquinho, agarra no cagalhoto, aconchega-o com a mão, sente-lhe o calor, tentando não o esborrachar, e zás, está pescado. isto parece-me um nojo. é óbvio que entre o cagalhoto e a mão há a intermediação do saco, mas, atendendo a que estes sacos são tão fininhos... aliás, estou a escrever isto e está-me a vir ao nariz o cheiro a merda, se bem que, diga-se, por trás desta capa de durão, eu sou um grande sentimental e tenho um forte impulso paternal,
se um dia tiver um cão, vou naturalmente repetir o ritual do saquinho, mas não farei como estes lisboetas insensíveis, à procura do caixote de lixo mais próximo assim que pegam no excremento, eu farei isso também, mas antes vou olhar para dentro do saco e vou analisar o cocó, dando-lhe também um ligeiro aperto com os dedos, tudo para aquilatar da saúde do meu bóbi, afinal era assim que a minha mãe fazia quando me assoava, olhava sempre para a cor e para a consistência do meu ranho, e como eu posso dizer que fui bem educado pela minha mãezinha, vou aplicar a mesma receita quando tiver um cão, porque a saúde do nosso corpo reflecte-se sempre na merda que dele expulsamos.
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
a vida na cidade tem tanta tensão como um western spaghetti
à tarde, estava eu a fumar na rua e veio ter comigo um senhor, aliás chamou-me, porque ele mal podia andar, de bengala e saco na mão, olhos muito abertos, sem dentes na frente, cabelo desarrumado, ar de vagabundo, deu logo nas vistas, havia várias pessoas a fumar e como me chamou senti-me logo observado por todos, como quem entra numa sala de espera, estava, portanto, em plena actuação no palco. pergunta-me ele, bem alto
- posso-lhe pedir um favor?
- pode.
- se for preciso eu pago pelo favor...
(é um louco ou não é um louco? vou ter aqui um filme à frente do trabalho ou não? o suspense é isto, a tensão. é aqui que o pé assenta no parapeito)
- não precisa de pagar... (ri-me)
- (ri-se) é que queria pedir-lhe um cigarro, por favor...
- desculpe... só tenho este.
- ah, não faz mal. obrigado na mesma, jovem.
e foi-se embora.
à noite, na fnac, estou ao balcão, peço uma queijada de leite e um café. só havia uma queijada. o empregado não a tirou logo. foi tirar o café primeiro. enquanto isso, chega um homem, a falar à fanhoso, 'ignora' que estou à frente dele e pergunta bem alto, como um louco
- esta queijada é de leite?
- é (responde o empregado).
- ok, é isso mesmo.
entretanto, o empregado tira o café, vai buscar um prato, tira a queijada, põe-a no prato e dá-ma.
(o pé volta, então, ao precipício. afinal, a única queijada vai para mim. o louco vai reagir? vai armar confusão? vai tirar satisfações?)
o empregado regista, diz-me quanto é, pago, espero pelo troco e levo o café e a queijada num tabuleiro para a mesa. estes procedimentos todos e eu à espera do ataque iminente, do louco, que sentia atrás de mim. mas não oiço nada. deve ter escolhido outra coisa.
prevenido, nestas duas situações de tensão pus a mão direita no fundo das costas. mas, felizmente, em nenhuma delas tive necessidade de sacar da pistola.
domingo, 8 de Novembro de 2009
declaração de interesses
os mother fuckers não cedem (atenção, que vem aí um post comprido)
mas tenho noção de que cometi dois erros.
contei a demasiadas pessoas que tinha um blog, e, como não é um blog sobre política ou sobre a criação de bichos da seda, isso tem consequências. conheço três quatro pessoas que estão neste momento com o mesmo problema.
o segundo erro foi ter falado sobre os novos colegas de trabalho usando figuras de estilo (como as metáforas, as hipérboles, as caricaturas...) que são de difícil encaixe e entendimento, mesmo quando os meus colegas são jornalistas e, à partida, mais aptos para conseguir ler não só texto, como também hipertexto.
é certo que quando estava no trabalho anterior também falara dos colegas, algumas vezes pior ainda, mas esses já me conheciam, percebiam o tipo de humor, percebiam as piadas, sabiam em que campo estava.
neste trabalho novo, não. foi esse o erro. tal como já repeti aqui algumas vezes nestes últimos tempos, houve algumas confusões, com más interpretações, descontextualizações, e por aí fora. e tal como já disse, houve pessoas que eu gosto aqui neste novo trabalho, e que me tratam bem, que se sentiram lesadas e eu percebo isso. escrevo muito como falo e sou, curto e grosso, mas com muito gozo e humor non sense.
a essas pessoas boas quero aqui dizer que lamento, não o faço porque ache que tenha errado, apenas porque infelizmente as pessoas parece que só assimilam ideias simples como bom, mau, preto, branco.
quando falei no cabelo berrante de uma colega não quis dizer que não gostava da cor, muito menos quis dizer que não gostava da pessoa, quando falei das tatuagens de outra colega não quis dizer que não gostava das tatuagens, ou que não gostava da pessoa. isto a mim, e a quem me conhece, parece óbvio, óbvio, óbvio. mas quem não conhece, não parece assim tão óbvio. devia ter previsto isso e não previ.
só a essas pessoas peço desculpa. as outras, quero que se fodam.
os medíocres, os preguiçosos, os bufos, os mesquinhos, os invejosos e os incompetentes serão sempre aqui bem-vindos, para, pelo menos, aprenderem como se escreve um texto sem erros de português. também os havia no trabalho anterior, como há aqui e haverá no próximo. tal como em todos haverá quem ache que o filho da puta sou eu, que o incompetente sou eu e por aí fora. somos máquinas de destruição, somos geneticamente maus. a diferença não se vê nas costas, vê-se na cara, na forma como queremos ou conseguimos disfarçar.
e aí, quem me conhece, nem precisa de ser bem, basta minimamente, sabe que não faço fretes há muitos anos. não me rio de piadas a que não acho graça, não sou simpático porque sim, não digo bom dia quando chego de manhã, não mando mensagens de natal, não dou moedas a arrumadores, não dou gorjetas quando o serviço não é bom, não saio à noite com quem não quero, não vou a festas de anos onde não conheço ninguém, não tenho paciência para gente estúpida, trato mal quem me trata mal, respondo, sou uma besta, agressivo, às vezes mal-educado, irrascível e frio com quem acho que merece. tento não enganar ninguém. quem me conhece sabe.
foi assim no trabalho anterior, onde, apesar de já ter falado aqui muito bem desses colegas, deixei lá seis ou sete que nem me podem ver pintado. e eu até gosto disso. gosto de um inimigozinho de estimação e, como já aqui o escrevi também, gosto de alimentar esses inimigos e de os levar à rua para passear (atenção: estas últimas palavras são uma... metáfora, uma figura de estilo, não estou a chamar bóbi a ninguém, boa?).
e muitos desses colegas que não me podem ver pintado ficaram assim porque neste país quando se diz 'tu não fizeste bem o teu trabalho' é a mesma coisa que dizer 'a tua mãe é uma galdéria'. nós gostamos mesmo é dos pais porreiros, tal como na escola gostávamos dos professores porreiros, e agora gostamos é dos chefes porreiros e dos colegas porreiros. é o país onde 'o gajo porreiro' é elevado à condição de herói, logo, em consequência, e infelizmente, a condição de sobrevivência dos realmente competentes.
lamentavelmente para mim, eu não sou um 'gajo porreiro'. tomo banho todos os dias, tenho um bom perfume, os dentes são direitos, sou doido por bolas de berlim e por literatura russa, mas não sou 'o gajo porreiro' que a nação porreira procura para líder, eu sei que vocês, portugueses porreiros, se reúnem todas as noites em caves esconsas à procura do gajo mais porreiro dos gajos mais porreiros, o tal, o the one do matrix, mas, tenho de ser sincero com vocês, eu sou inelegível para esse peditório, não sou quem vocês procuram.
aos meus colegas novos que estão a ler isto, porque, pelos vistos, lêem, e que não me conhecem, saibam que só trato bem quem gosto, só sorrio para quem gosto. se estás a ler isto e achas que sempre te tratei bem, que falo bem contigo, então podes ter a certeza de que gosto de ti ou te acho competente naquilo que fazes. aproveita o meu sorriso magnífico (atenção: voltei a usar uma figura de estilo, que é chamada de... acertaram, é a ironia outra vez) enquanto cá estou.
acho que mais sincero do que isto não posso ser mais. podia revelar aqui quantos pares de meias tenho, mas acho que isso já seria intimidade a mais.
e com isto o assunto é encerrado e não se volta a falar disso.
sábado, 7 de Novembro de 2009
ao t. e à t.
como há dez anos ouvíamos outras coisas, ontem matei muitas saudades dos tempos em que éramos patetas assim, gostei muito, eu estava no banco de trás, mas estava-me a rir baixinho, não sei se perceberam, e durante dez minutos estive calmo e feliz outra vez, era só para vos dizer isso, que gosto de vocês à brava.
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
o gosto de ser surpreendido
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
duas perguntas sobre calças
porque é que não posso pôr um par de calças nas despesas de representação?
o artista é um bom artista
"O programa do XVIII Governo Constitucional, para a legislatura de 2009 a 2013, é um programa de ambição para o futuro do País."
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
desabafo
... há duas semanas que os packs de seis minis da super bock estão esgotados no pingo doce e ninguém protesta, ninguém faz nada, como é que querem que o país vá pr'à frente?
a solidão é isto
bons tempos
sou uma maria vai com as outras
queria uma azul escura.
já estão a aceitar encomendas para o natal?
eu também não mando a toalha ao chão
porque é que o senhor dos transplantes está na tvi a falar sobre o sporting?
também posso ir?
A propósito de António Sérgio
a minha geração luta pelo seu lugar, com um olho virado para trás, de medo de ser ultrapassado pelos mais novos, e outro virado para a frente, à espera que a ordem natural das coisas definhe os mais velhos e que nós lhes tomemos o lugar,
daí que a morte dos seus ídolos, das suas referências, é encarada meramente como política, baixa política, realpolitik se quiserem, é sinal de que a geração à minha frente está a ficar sem os seus trunfos, sem forças, é sinal de que está a chegar a nossa hora, obrigado pelo que nos ensinaram, mas saiam da frente que nós estamos aqui, fortes e pujantes, também temos os nossos Antónios Sérgios, não nos digam que antigamente é que era bom, agora é que é,
não nos perguntem é no quê.
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Naquela altura...
naquela altura, também não pagava quando decidia alugar um pai que não conhecia de lado nenhum, punha-me à volta do estádio, escolhia um pai com cara de simpático e perguntava posso entrar consigo?, como se fosse seu filho, isto porque naquela altura as crianças não pagavam se estivessem acompanhadas dos pais, e havia sempre um senhor simpático que me deixava ser filho dele, e então eu entrava com o meu pai e depois de passar os portões dizia obrigado e passava a ser órfão outra vez, de língua de fora a subir as escadas até entrar naquelas bocas para o anfiteatro das bancadas, onde o estádio se abria sempre todo aos meus olhos, a receber-me como um filho, como se fosse a primeira vez, ainda hoje é assim, ainda hoje a entrada no estádio é como se estivesse a entrar num mundo encantado, eu sei que isto é tolice, mas o futebol é assim mesmo, o sítio onde vamos para ser como os tolos,
naquela altura, ocorria muitas vezes o fenómeno de haver mais espectadores do que lugares, vi muitos jogos no colo do meu pai, principalmente contra o sporting ou o porto, que são os nossos rivais, de tal modo que escrevo o nome deles em minúsculas, às vezes estava tão cheio o estádio que nas saídas e entradas lembro-me de olhar para cima e ver as pessoas crescidas a entalarem-me muito e o meu pai a dizer cuidado que está aqui uma criança, o que era uma pena mesmo era estar sempre esganado de fome e ter vergonha de pedir para comer umas queijadinhas de sintra, que eram vendidas por uns senhores de boné,
naquela altura, comprávamos os bilhetes para o anel que queríamos e o lugar era onde houvesse uma nesga, ao contrário dos cinemas da altura, em que tínhamos o lugar marcado, agora é ao contrário, no cinema ficamos onde quisermos e, no estádio, para ver os cabelos ao vento do Aimar é como se fosse cinema,
naquela altura, quando uma parte do estádio enchia podíamos saltar a vedação e ir para outra, lembro-me de mim em puto de dez, onze anos, a subir ao parapeito do estádio, olhava muito lá para baixo e estava a quarenta metros da rua, um perigo tamanho, o coração saltava-me todo mas eu não podia pensar em agarrá-lo porque tinha as mãos ocupadas com a vedação, punha um pé num sector, arqueava a barriga e saltava para o outro lado, muitas vezes os parapeitos tinham uma espécie de pregos e eu muitas vezes aleijava mesmo os pés, que ainda eram pezinhos, se é que me desculpam o parêntesis, mas tudo se fazia para ver o Magnusson e o Valdo, o Silvino e o Diamantino, o Rui Águas e o Manniche, o Bento e o Nené, o Mozer e o Ricardo,
naquela altura, não havia cheerleaders, nem águias a voar, não havia seguranças a pôr o bilhete numa máquina, entrava-se por uma porta muito estreita, em puto entrava bem, conforme fui crescendo tive de começar a rodar o corpo para passar, naquela altura não havia adeptos de fato e gravata como há tantos hoje, acabados de sair dos empregos nos bancos e nos escritórios, até porque naquela altura o Benfica jogava aos domingos às três da tarde e nós vínhamos de t-shirt e calças de ganga, e fazíamos uma coisa que já não se faz, que é toda a gente bater com os dois pés no chão, assim muito depressa, era uma espécie de terramoto, nunca percebi bem a ideia, seria talvez para meter medo aos outros, o que sei é que não houve uma única vez que não ficasse com pavor que o estádio caísse, é hoje que isto vai abaixo, pensava eu, e foi mesmo, o meu Estádio da Luz foi ao chão por causa do progresso e das coisas novas,
mas há coisas que nunca mudam, esta semana vi coisas na Luz que ainda me lembram os meus tempos de miúdo, o Benfica voltou a ser um monstro avassalador de sangue, o árbitro continua a ser o ladrão, ainda há gente que grita remata com força!, assim mesmo, entre o conselho de um amigo e a ordem, ainda se vê a nuvem de fumo dos cigarros a subir toda lânguida pelas bancadas, ainda há os couratos e as bifanas a soprarem na grelha, naquela altura atafulhavam-se em barraquinhas ao lado dos cachecóis, hoje é em roulottes topo de gama com televisão a cores, mas o tempero, isso garanto-vos, ainda é o mesmo, ainda há senhores a vender queijadinhas de sintra e a chatear-nos quando nos pedem para passar, mas agora usam crachás com nome e fotografia,
ainda nos levantamos quando o da frente se levanta e ficamos a contar que o que está atrás de nós se levante também, ainda se grita a este jogador passa a bola àquele, ainda fazemos assim com o braço a dizer-lhe como é que devias ter rematado, como se tu ouvisses alguma coisa aí em baixo, ainda se conversa com o tipo do lado, que no final do jogo já não é um tipo qualquer, é um porreiraço, no fundo tudo pode ser novo e moderno, mas as coisas irracionais ainda lá estão, suponho que com os outros clubes também seja assim, mas com o Benfica é diferente, não venham dizer que não é, porque senão temos aqui zaragata, ah, tantas zaragatas que havia naquela altura...
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Post sofrível
- Puuuhhh! Pu!
Silêncio. Um minuto depois, vindo da esquerda:
- Paahh! Bruurr! Puuh!
Como nunca me meto em discussões onde não sou chamado, sequei as mãos e saí discretamente.
domingo, 25 de Outubro de 2009
A problemática dos jeans de homem em sociedades avançadas
A verdadeira chatice de comprar jeans é que parece que quem escolhe somos nós, mas não somos. Só parece. É a mesma coisa com os deputados, o presidente da república e os presidentes da junta. Somos nós que os escolhemos, mas eles foram previamente escolhidos pelos partidos. Escolhemos aquilo que antes foi escolhido por outros, sob critérios que desconhecemos.
Coisa parecida com os jeans, porque só escolhemos o que alguém desenhou antes, fazendo estes "artistas" inúmeros modelos para nos darem a ilusão de que somos livres na escolha. Dirão que sempre foi assim (pelo menos desde que os alfaiates passaram a museu e a reportagens de 15 páginas na Notícias Magazine), e devem estar correctos. Acontece que, julgo eu, antigamente a roupa de homem era desenhada por homens, parecia de homem, ou pelo menos o conceito de homem era bem menos lato do que é agora.
Com a invasão dos gays nos circuitos de moda, as coisas mudaram um pouco. Produtos que antes eram de senhora, passaram a ser usados por homens. Repare-se nos brincos: os gays começaram a usá-los e anos depois chegaram aos homens de barba rija. É o que vai acontecer com as malas. Basta andar por Lisboa para se verem já meia dúzia de larilas (e alguns metrossexuais) com elas pela mão - daqui a uns anos também estas malas de senhora (mas que as gajas e os maricas que escrevem nas revistas de moda chamam de "malas de homem") chegarão às mãos de grandes mother fuckers que eu admiro como o Petit ou o Sébastian Chabal. Isto parece-me uma tragédia.
Logo, como a escolha dos jeans nunca é, tal como acontece com os deputados, uma escolha livre, se são só os larilas a desenhá-las estamos bem fodidos, porque ou vamos comprar calças às feiras da província e à C&A (duas opções que só desejo aos meus inimigos), ou andamos aí vestidos com jeans larilas, e eu bem olho para a triste figura que os meus camaradas homens andam a fazer... Mas se lhes perguntarem se gostam destas calças amaricadas, elas dizem que adoram, são fashion e o caralho. Quando oiço isto só me apetece fazer uma alegoria tipo Ensaio Sobre a Cegueira.
Há duas ou três marcas que são excepções, como a Levi's ou a Benetton, por exemplo, não fosse o óbice de cada par de calças nestes entrepostos custar aí uns 100 euros. Ou seja, os jeans de homem estão tão raros que andam ao nível de produto de luxo, ou pelo menos fora do alcance massificado dos homens comuns que não ganham fortunas por mês. Resta-lhes, então, lojas de centros comerciais como a Pull&Bear, Zara, Springfield ou Bershka, onde campeiam a 25 euros (valor que nem dá para ir às meninas) os belos jeans 3 em 1: larilas, chungas e bimbos. Não é por acaso, tem tudo a ver com subsconsciente e o negócio: são larilas porque são larilas quem os desenha (aposto eu) e são chungas e bimbos para satisfazer o gigantesco nicho de mercado chunga e bimbo que gravita por cá.
Atenção, que eu não tenho nada contra a paneleiragem, entenda-se, por favor não me chamem homofóbico outra vez. Tem é de se ter cuidado com as pessoas que desenham os jeans que andamos a vestir. Porque o gay é (desculpem a concisão do argumento) uma gaja em corpo de homem, e isso tem necessariamente consequências na maneira como pensa, age e cria. Jeans de homem, por exemplo.
Rasgões, desenhos, bainhas viradas, envelhecimento simulado, dobras simuladas, nódoas simuladas, salpicos de tinta simulados, correntes atreladas, bolsos semi-ortogonais, bolsos descaídos, bolsos invertidos, buracos, cintura descaída, desenhos florais, cores desbotadas, costuras nos joelhos, costuras pelas coxas, bom...
- Diabos me levem se não é um homem que ali vai!
quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Conversa de merda
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Cinco minutos de fé
Mas entre as 16:47 e as 16:52 os raios de sol conseguem passar naquele intervalo de um centímetro que há aqui entre os estores, eu sei a hora e os minutos exactos porque o sol bate-me mesmo nos olhos, parece uma coisa espiritual, um chamamento divino, ou uma exortação, uma coisa do género:
- Vá, meu grande filho da puta, levanta-te daí e vai-te embora.
Mas, como demoro mais de cinco minutos a decidir, os raios de sol entretanto passam e acabo por ficar.
sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
Sinestesia
E imediatamente me passou a meninice toda pelo nariz, assim como uma aragem, de tão longe que ela já está, nada de muito forte, mas ainda assim uma aragem a açúcar e a creme caseiro, e a seguir vieram as aragens todas, da escola, dos livros e dos lápis, dos afias e das futeboladas, uma infância toda que passa assim pelo nariz resumida em segundos, rápida e leve, sobe ao cérebro e desce às mãos para vos escrever aqui que, em tempos idos de puto, andava muitas vezes com a boca cheia de grãos de açúcar e que atacava o creme com o mesmo dedo com que depois pedia à professora para falar.
Bastou alguém falar em bola de berlim.
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
domingo, 11 de Outubro de 2009
Desculpa, mas não te vou dizer isso...
Este ano tem havido muitas eleições, muitas oportunidades portanto para assistir a um fenómeno curioso, e muito típico por cá, que é o de as pessoas não dizerem em quem votam.
- Votas em quem?
- Desculpa, mas não te vou dizer isso...
- Porquê?
- O voto é secreto...
Ah, o voto é secreto! Ou seja, aquilo que numa situação normal seria a assumpção saudável e despretenciosa de uma visão política da sociedade e do que o cidadão acha ou deseja que seja o futuro da mesma, em Portugal o sentido de voto entra no domínio da intimidade mais secreta.
- És de que clube?
- Do Benfica! Até os meus filhos pequenos já são!
- Gostas de couve-flor?
- Como, mas prefiro couve-lombarda.
- Qual é a tua cor preferida?
- Depende das estações. Gosto muito de azulinho no Verão. No Inverno é mais verde escuro.
- Ouve lá, tu dás traques quando estás sozinho em casa?
- Eh, pá, desculpa, mas não te vou dizer isso...
- E babas-te na alfomada?
- Desculpa, mas não te vou dizer isso...
- Votas em quem?
- Desculpa, mas também não te vou dizer isso...
Não se trata de associar o voto à intimidade quase escatológica, entenda-se. Está na mesma onda, mas é outra coisa. Pode ser ignorância (votam naquele mas depois não sabem explicar porquê) ou vergonha (eu, por exemplo, votei PP nestas Legislativas e, aos olhos dos que me rodeavam, parece que tinha peste bubónica). Mas não é bem por aí.
Esta postura é típica de uma sociedade que vive das cunhas e, principalmente, da mania da perseguição. Um tipo que assume votar num partido (acha que) fica automaticamente rotulado e nunca se sabe se um dia não vai ser prejudicado por isso, mesmo que a pessoa em causa seja um zé ninguém.
O sistema, o tão falado sistema, está impregnado na pele do português como o sangue que lhe corre nas veias. Por isso, não gosta de se comprometer sobre o partido em que vota. Nunca se sabe o dia de amanhã (grande frase inventada pelos portugueses), seja no local de trabalho, no condomínio do prédio, nas finanças ou a comprar borrego no talho.
quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
Chuva
terça-feira, 6 de Outubro de 2009
"Data", Sophia de Mello Breyner Andresen
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça
quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
Mas parece que a finalidade do Facebook, disseram-me e li por aí, é poder ser um instrumento útil de trabalho. O que venho aqui dizer é que tenho constatado à minha volta nos últimos meses que essa designação é imprecisa. O Facebook não é um instrumento útil de trabalho. É um instrumento útil no trabalho. Porque enquanto se está no Facebook não se está a trabalhar.
Aí é que está o meu problema com o Facebook. É que engatar machos e fêmeas é uma ciência social, ou seja, o interesse está na sua não-precisão. Usar o Facebook (ou outra coisa qualquer) para não trabalhar é uma ciência exacta praticada há milénios pelos incompetentes e mandriões, pelos desmotivados da vida e pelos diminuídos. Eu adoro estes espécimes, atenção, mas odeio ciências exactas.
Daí o meu pedido. Trabalhem muito nos vossos empregos e usem o Facebook apenas para satisfazerem as vossas necessidades fisiológicas de animais. Isso eu apoio. Os risos, o cio, as fotos, os comentários, a excitação, as mentirinhas, os amigos, a ilusão, a ira, a tristeza, a vaidade, a recusa, a inveja e, acima de tudo, o entusiasmo pré-ejaculatório da fêmea e do macho, tudo isso acho maravilhoso e tudo isso o Facebook proporciona. Ah, se não fosse o líquido pré-ejaculatório não haveria romance, e depois eu ia falar de quê, que livros leria, que filmes se fariam, que seria de mim?
quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
Aqui há dias, algures numa lavandaria em Lisboa
Uma das melhores invenções de sempre nem foram os post-its. Foram os post-its pequenos. Imagine-se o que seria desta camisa se só houvesse post-its daquele tamanho grande.
Mas isto serve basicamente para dizer que aprecio gente organizada.
terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Ontem, algures em Lisboa
PS: O comentário que gostaria de ter feito a esta foto, mas que fez este leitor, que veio daqui: "Parece-me muito bem! Eu próprio vou fazer uma limpeza a fundo cá em casa, pois se houver coligação com o Bloco, quero ter tudo arrumadinho e bem limpo quando me entrarem pela casa adentro e a nacionalizarem dizendo que isto é do povo, levando-me os pertences."
Este mês, algures em Lisboa
domingo, 27 de Setembro de 2009
O melhor das eleições legislativas
- Nota-se que a malta do CDS quer comemorar à maluca como fazem os tipos do BE, mas não podem porque eles são do CDS.
- Vitorioso, Portas está nitidamente com vontade de beber uma cerveja.
- Ainda ninguém explicou porque estão tantos afros na festa do PS.
- Prevenido, Sócrates tem passado várias vezes a mão pelos cantos da boca.
- Sócrates fez beicinho a meio do discurso.
- Sócrates diz que "a abertura do PS veio para ficar".
- Sócrates começa o discurso para os jornalistas: "Saiam da frente".
- Repórter da TVI interpela apoiante do PS no Largo do Rato: "A senhora foi uma das primeiras a chegar..." A senhora interrompe: "Não, não... Aquela é que foi das primeiras. Oh, anda cá..."
- Louçã diz que é importante uma pessoa com "corenta" anos de trabalho ter descontos.
- Vê-se agora militante do BE a sorrir sem um dente de lado - o contentamento pode dever-se ao facto de a sede do BE esta noite ser na Faculdade de Medicina Dentária.
- Há gays com bandeiras, perdão, há bandeiras com arco-íris na sede do PS.
- Ana Drago foi para a TVI com uma blusa de cor de mosca-varejeira.
- Miguel Sousa Tavares conseguiu agora estar cinco segundos sem esganar o lábio superior direito.
- Todos os dirigentes do PSD dizem que amanhã começa a campanha das Autárquicas, que é como quem diz "esqueçam esta merda das Legislativas, vamos para casa depressa, que amanhã é que é a sério".
- Ana Lourenço (SIC) e Lurdes Baeta (TVI) ganham estas eleições por maioria.
- Teresa Caeiro tem o peito cheio de sardas.
- Bernardino Soares, do PCP, aparenta estar aborrecido.
- António Costa diz que vitória do PS foi "suada".
- Repórter da SIC diz que há festa do PS na paragem do autocarro 758.
- Maria José Nogueira Pinto reage à derrota do PSD: "Vamos lá ver, o que é uma derrota?".
- Rodrigo Guedes de Carvalho diz que o colega Bento Rodrigues está "constantemente a trabalhar; e que muito se trabalha aí..."
- Rodrigo Guedes de Carvalho e repórteres da SIC explicam resultados às pessoas da única maneira que eles entendem: "PS vai à Liga dos Campeões, PSD na pré eliminatória, BE e CDS vão à UEFA e CDU desce de divisão".
- Sempre guardião, Manuel Alegre diz que esta derrota do PSD depois de ter ganho as Europeias é "um problema para a democracia."
- Rodrigo Guedes de Carvalho diz a Pedro Mourinho para começar "a apertar os números". Pedro Mourinho cerra os olhos e obedece.
- Deus Pinheiro diz que não está com "ar fúnebre" e enfatiza arqueando a barriga para a frente com as mãos nos bolsos e um ligeiro salto.
- O PS canta vitória e o caso não é para menos: perdeu votos, perdeu deputados e perdeu a maioria absoluta.
- Marcelo Rebelo de Sousa diz que "é fundamental saber quem ganha".
- Rodrigo Guedes de Carvalho apresenta ao país a previsão da abstenção e a sua barba nova de três dias.
- Marcelo engata Judite de Sousa em directo: "Quando a câmara passou para si, a sensação que fiquei é que se apagaram as luzes, tal o seu brilho natural..."
- Portas chega à sede do CDS, não ouve uma pergunta dos jornalistas e diz "ãããhhh?".
- Sócrates diz que se atrasou porque foi "abordado por transeuntes..."
- Manuela Ferreira Leite enganou-se na fila de voto.
- Manuela Ferreira Leite precisou das duas mãos para pôr o boletim na urna.
- Manuela Ferreira Leite conjugou uma mala Louis Vuitton com um casaco de surfista evocativo da Califórnia - dizia Redondo Beach 516 Pacific Coast- Fan Club. A marca é Dismero, algo do género chic sportswear.
- Manuela Ferreira Leite foi votar exactamente com a mesma roupa que usou há três dias numa arruada.
- Mário Soares estava impecavelmente penteado.
- Seguranças de Cavaco Silva ajeitaram-lhe o tapete à saída da escola onde votou.
- Cavaco Silva levou gravata verde escura com bolinhas verde claras.
- Cavaco Silva diz para os portugueses "fazerem um esforço" e irem votar.
- Enquanto falou aos jornalistas, Cavaco Silva mostrou a língua 8 vezes.
- Louçã não se importou de votar num stand - diz que "o importante é que haja mesas de voto."
- Louçã levou uma camisa que, tal como ele, já foi revolucionariamente muito branca há muitos anos.
- Durão Barroso disse que veio, mais uma vez, votar ao seu país. "Que é Portugal", elucidou.
- Quando se dirigiu para a mesa de voto, Manuel Alegre desapertou o botão do casaco.
- Atrás de si, na fila para votar, Santana Lopes tinha um mitra vestido com um fato-de-treino.
- Repórter da SIC no Porto diz que "bamos ber" como vão ser estas eleições.
- Tal como nas últimas eleições, o repórter da SIC em Bragança começou a sua peça a tranquilizar o país, garantindo que "não há incidentes em Bragança".
- O mesmo repórter disse que não se lembra "do tempo que fazia no dia das últimas eleições há quatro anos."
- Repórter da SIC em Portalegre garante que "eucaristia dominical não tem feito concorrência com as eleições".
quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Os direitos dos trabalhadores determinados
Ando no mercado de trabalho há sete anos. E tenho visto muitas doenças, ainda agora esta semana vi duas, uma já aconteceu, a outra está a acontecer agora, teatro do bom, conto mais à frente.
Regral geral, são ataques súbitos que acontecem depois de um raspanete, grandes tragédias em que o estômago é o alvo preferencial, porque o estômago está no domínio insondável das tripas e dos ácidos - "dói-me o estômago", mas tu estás bem, "mas dói-me muito", pronto, está bem - dores que começam à sexta e acabam ao domingo à noite, numa precisão matemática que me leva a julgar a medicina uma ciência exacta, para não falar dos filhos, miúdos de aço, excepto às sextas e segundas, dias em que se tornam frágeis criaturas com doenças arreliadoras, e depois vêm os esgotamentos...
ah, os esgotamentos, adoro um bom esgotamento, a palavra parece gerúndio, coisa continuada no tempo, tem a vantagem de dar muito tempo de baixa, mas requer uma teatrilização prévia de vários dias, porque é suposto um esgotamento não se apanhar assim como quem apanha um choque eléctrico, caso contrário até parecia que se estava a fingir, começa-se com um ligeiro toque ao patrão, em conversa, como quem não quer a coisa, "estou tão cansada...", "dói-me tudo...", é o primeiro passo, depois andamos de cabeça baixa, tristes, sem falar muito, estamos a "esgotar", coisa que exige uma concentração absoluta, uma gargalhada não contida e lá se vão por água abaixo dias e dias de bateria baixa,
ah, adoro assistir a isto, porque inventar uma dor qualquer no barriga é do domínio dos cobardolas, teatrilizar um esgotamento à frente de todos, vários dias a fio, é de artista de cinema, por isso digo que quem me tira um esgotamento a decorrer tira-me tudo.
terça-feira, 22 de Setembro de 2009
Todos temos direito à infantilidade
Ontem comprei uma maçã. Dei-lhe uma dentada, depois outra, e mais outra, até lhe deixar as entranhas à mostra. E foi então que vi uma linha recta assim meio castanha no meio da carne branca. Um olhar mais atento e constatei que era uma lagarta a escavar um túnel, que, imagine-se a trabalheira da bicha, já ia a meio, entre a casca e o clítoris. Depois de uma breve hesitação tomei uma atitude: não era por causa de uma lagarta que ia ficar sem lanche.

Antes, um parêntesis.
(Eu já ando a fazer um sacrifício do c****** para comer fruta em vez de queijadinhas de leite (não é que não goste de fruta, adoro, e até recomendo sempre aos meus amigos uma boa dose de frutose) e não era agora uma lagarta que me ia estragar os planos. Desde que não lhe toque nos corninhos nem é nojento,
é, aliás, sempre agradável ver alguém a trabalhar no duro, ainda mais num túnel, que, como se sabe, são vias rápidas que se abrem para cortar caminho e ganhar tempo - por exemplo, Santana Lopes construiu o túnel do Marquês para evitar os semáforos da Rua Castilho, tal como Deus Nosso Senhor arquitectou as vaginas para evitar a trabalheira que seria os espermatozóides chegarem ao óvulo via garganta (o que seria demorado e requeriria combustível extra) ou via esfíncter anal (o que seria repugnante, além de doloroso, pelo menos nas primeiras vezes),
ao mesmo tempo que criou este túnel Deus resolveu outro problema, o parto. Como se sabe, os primeiros humanos foram criados por inspiração divina, ambos com pénis, segundo esta teoria, de modo que às mulheres hermafroditas era-lhes impossível essa tarefa, mas com este novo túnel resolveu-se o problema, além disso o Arquitecto Supremo, num toque de requinte, dotou-o de flexibilidade, ou seja, este túnel, normalmente estreito, pode passar a largo, à medida da cabeça dos miúdos, para de seguida voltar a estreitar, um pouco como o referido túnel do Marquês ter seis faixas de rodagem à hora de ponta e apenas duas ao fim de semana,
aliás, esta teoria evolucionista determina que o clítoris mais não é do que um ex-pénis, que foi rei e senhor há milhões de anos, mas que perdeu protagonismo quando Deus (verificando rapidamente que havia problemas na procriação humana) construiu o tal túnel para facilitar a vida às pessoas. Daí o pénis ter vindo a minguar com o tempo, tal como aconteceu com o dedo mindinho dos pés, que, dizem os entendidos, há-de desaparecer daqui a milhares de anos, pela simples razão de que não serve para nada,
felizmente, não consta que o clítoris vá desaparecer também porque, apesar de mais pequeno (em comparação com o seu pai-pénis), conservou umas terminações nervosas que dão prazer, ou seja, o clítoris permanece útil, apesar do seu fim ter mudado, passou de mera excentricidade do tempo das cavernas (atentem que na altura não havia televisão nem Chapitô) para o deleite hedonista da fêmea moderna (útil porque a fricção mecânica do clítoris relaxa o mulherio e alimenta toda uma indústria à volta dos túneis, que os jornais sérios chamam de "indústria do sexo").)
Fim de parêntesis.
Isto para dizer que antes cuspir a largarta no lixo a deixar o serviço a meio.
E consegui, obviamente, que eu sou espectacular nestas merdas.
sábado, 19 de Setembro de 2009
As putas
eu não, eu não sou puta, sou a única, por isso sou pobrezinha, não tenho grandes empregos, grandes ordenados, mas pelo menos sou honrada, não sou como essas putas que andam aí, grandes putas, que falam como putas, olham à puta, fumam como as putas, putas, putas, putas, cuecas de puta, pernas de puta, sapatos de puta, filhas da puta, que se maquilham como putas, cuidam-se como as putas, fodem com os homens que deviam ser nossos, mas que não são, porque eles gostam é de putas, putas, putas, e eles também as acham umas putas, principalmente aquelas, as putas, que não se deixam foder por eles, os homens, e assim estas putas são putas para todos, excepto para elas mesmas, as putas, e para os que as fodem, ah, grandes putas, tão diferentes de mim,
eu não tenho tempo para o cabeleireiro, não tenho a vida dessas putas, trabalho muito, tenho filhos, uma casa para cuidar, ah, se eu soubesse o que sei hoje, mas fui estúpida, fui burra, mas fui honrada, não me deitei com ninguém, não sou como essas putas, que chegaram onde chegaram porque são umas putas, de certeza que foi,
sim, as putas que andam aí em grandes carrões, sempre de férias, filhas da puta, vidas de putas, dançam à puta, riem-se com dentes de putas, bebem bebidas de putas, em copos de putas, com unhas de putas, todas umas putas, estas putas, eu tenho princípios, não sou como vocês, que são todas umas grandes putas.































