Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
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A mesma pressa e vontade que leva a criar ondas ou nelas ir, a mesma precipitação, a mesma falta de calma e bom senso a ler e a ouvir, fez mais uma vítima, como se pode ver pelos comentários do post abaixo. Não me estava a referir a este blog, nem ao comentário do misantropo, nada disso. Era outra coisa - que me pareceu óbvia. Mas vocês hoje em dia não têm calma. Agora não posso explicar o que queria dizer mesmo, que tenho de trabalhar. Mas mais logo, assim nosso senhor que estais no céu queira, assim esteja também de barriga cheia de sopa, então explicarei. Ou não.
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
misantropia
Um leitor aqui no post abaixo chamou-me misantropo. Fê-lo com elegância e simplicidade, ainda que o propósito seja terreno e complexo: apanhar-me com as calças na mão. De facto, esta semana rasgaram-se-me umas calças de dormir quando me baixei para apanhar umas meias, mas não é por aí que me apanham vulnerável.
Um misantropo é uma pessoa que tem aversão ao convívio social ou então tudo lhe aborrece no género humano. Quanto à aversão, não tenho nenhuma - pelo contrário, até gosto de multidões. As pessoas em conjunto não me aborrecem, até me fascinam - o pior é quando se começam a dividir nos pequenos átomos da sua personalidade, ou seja, quando isoladamente começam a falar, e aí sim, misantropo me confesso (ainda que haja honrosas e em razoável número excepções no nosso dia-a-dia).
A coisa é potenciada na internet - é as pessoas acharem que por estamos em rede ou seguirmos-lhes os blogs lhes dá o direito de nos bombardearem com as suas opiniões. Não dá. A internet é uma espécie de reino da impunidade - não pelas ofensas que se trocam nos blogs, nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos jornais, mas pelo facto de não se calarem um bocado. Isso sim, aborrece. Isso sim, ofende. Esse direito que as pessoas acham que têm de nos estarem constantemente a bombardear com bitaites. Não o fazem em casa, não o fazem no trabalho - até andam bem caladinhos -, porque é que fazem na internet?
Um misantropo é uma pessoa que tem aversão ao convívio social ou então tudo lhe aborrece no género humano. Quanto à aversão, não tenho nenhuma - pelo contrário, até gosto de multidões. As pessoas em conjunto não me aborrecem, até me fascinam - o pior é quando se começam a dividir nos pequenos átomos da sua personalidade, ou seja, quando isoladamente começam a falar, e aí sim, misantropo me confesso (ainda que haja honrosas e em razoável número excepções no nosso dia-a-dia).
A coisa é potenciada na internet - é as pessoas acharem que por estamos em rede ou seguirmos-lhes os blogs lhes dá o direito de nos bombardearem com as suas opiniões. Não dá. A internet é uma espécie de reino da impunidade - não pelas ofensas que se trocam nos blogs, nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos jornais, mas pelo facto de não se calarem um bocado. Isso sim, aborrece. Isso sim, ofende. Esse direito que as pessoas acham que têm de nos estarem constantemente a bombardear com bitaites. Não o fazem em casa, não o fazem no trabalho - até andam bem caladinhos -, porque é que fazem na internet?
praia
a onda de hoje é o piegas do passos coelho, como há uns dias era a reforma do cavaco, de quem já ninguém se lembra, como antes era a promoção da fnac, como antes tinham sido os pastéis de nata do ministro, e depois outra coisa qualquer, que, lá está, já não me recordo, como antes tinham sido os pentelhos do catroga, que já parece história, ou os chineses do futre, que soa a pré-história, o problema das democracias é a liberdade de expressão em excesso, todos se acham na posse de uma opinião, e então aquilo que não passa de espuma torna-se uma onda no somatório de posts, twittes, likes, artigos e aberturas de telejornal, o nada tornado tudo pela acumulação de nadas, depois esquece-se tudo porque lá vem outra onda para cavalgar, a sociedade vegeta assim na praia dentro de água, em zona de pé, vem uma onda e ops, lá vai o corpo um bocadinho para a frente, depois volta para trás e ops, lá vem outra ondinha, e o corpo deixa-se atirar novamente para a frente, depois volta a recuar, aproveitando o refluxo, para a frente e para trás, para a frente e para trás, pela onda e pelo refluxo, pela onda e pelo refluxo outra vez, sem esforço, docemente, não se cavalga a onda, deixa-se cavalgar pelo animal, uma espécie de ródeo manso, não fosse a pele tender a encarquilhar e religiões se fariam assim, com Meca em Carcavelos e Jerusalém na Caparica, a populaça divertindo-se assim, relaxando assim, ocasionalmente aliviando-se assim de alguma necessidade de bexiga, que a maré tudo lavará no minuto seguinte.
Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
tdt
Não tenho televisão. A busca automática de canais não busca nenhum canal. A busca manual de canais também não busca. Fóruns de internet de gente boa, onde cheguei via google, afiançam que o problema é provavelmente a antena do prédio, que não deve estar bem direccionada no telhado. Antena no telhado? E que uma solução poderá ser desligar a ficha da antena do prédio e pôr uma antena interna em cima da televisão. Antena em cima da televisão?
A ultramoderna tdt é afinal o regresso aos anos 60. Será? Que bom.
A ultramoderna tdt é afinal o regresso aos anos 60. Será? Que bom.
Domingo, 29 de Janeiro de 2012
Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
cavaquice
Em Lisboa, costuma contar-se a seguinte história:
Vai um maluco a descer a Avenida da Liberdade e começa a gritar maluquices.
As pessoas à volta logo dizem umas para as outras: "Ah, é maluco..."
Vão dez malucos a descer a Avenida da Liberdade e começam a gritar maluquices.
As pessoas à volta logo dizem umas para as outras: "Ah, é uma manifestação..."
Vai um maluco a descer a Avenida da Liberdade e começa a gritar maluquices.
As pessoas à volta logo dizem umas para as outras: "Ah, é maluco..."
Vão dez malucos a descer a Avenida da Liberdade e começam a gritar maluquices.
As pessoas à volta logo dizem umas para as outras: "Ah, é uma manifestação..."
Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
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O meu vizinho de cima é escritor e vive no estrangeiro - dois factos que nunca disse a ninguém apesar do evidente prestígio que acarretam. Há dias, a sua editora portuguesa, desconhecendo a pequenez do mundo, mandou-me um mail a dizer que ele vinha a Portugal lançar o seu próximo livro, mal sabendo que em vez de dizer "o escritor x vai apresentar o livro y no dia z", podia simplesmente dizer que "olha lá que dois ou três dias antes do dia z o teu vizinho de cima vai chegar a Lisboa e vai dar jantares todas as noites até às tantas para os amigos que não vê há muito tempo."
Domingo, 22 de Janeiro de 2012
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Quando calha estar nesta casa que me abriga e o Benfica está com um jogo enguiçado na Luz, só há uma maneira de resolver as coisas: vou à janela que tem vista para o estádio fumar um cigarro. Já correu bem várias vezes. Voltou a correr. O Benfica acabou de marcar dois golos em menos tempo do que demorei com o cigarro. Penso que esta manha é a única coisa que me corre bem.
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
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Finalmente, à direita, outro prédio, outra casa. Vê-se um frigorífico. Às vezes vai um casal dar beijinhos para a varanda. Mas regra geral é uma mulher a fumar. Sempre a fumar. Não estamos suficientemente perto para lhe ver os olhos, mas é evidente que me observa. Eu sou a vaca dela.
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À esquerda, mais uma casa. Vivem lá pessoas que falam brasileiro. Duas mulheres e um homem. Puseram cortinas novas. Cortinas rosadas - cor de salsicha antes de ir ao churrasco. Às vezes devem churrascar. Brasileiro churrasca. Uma delas gosta de se pentear na casa de banho. Brasileira só casa por amor se não tiver outro remédio (outra grande frase).
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Na casa ao lado da mulher que varre nua vive um homem magro (só esta frase já dava um grande post). Nos dias de chuva, e se tem a roupa estendida, não a tira: vai buscar um oleado transparente e fino e põe por cima, muito bem dobradinho e preso com molas. Tem um gato preto que anda por cima das mesas.
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
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Aqui nas traseiras, a trinta metros, há um prédio. No terceiro andar, nas tardes de calor, há uma mulher que varre o quarto vestida só com umas cuecas brancas fio dental. É uma típica cena pachorrenta de campo - eu a fumar à janela, e ela de mamas, umas mamas enormes, a dar a dar, como uma vaca.
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As pessoas que acordam cheias de vida e alegria são exóticas - deviam estar num zoo, ou num circo, a fazer coisas com bolas.
Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
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Depois de quase ter morrido, estou como novo outra vez. Já consigo chegar aos atacadores, já me consigo pôr de cócoras para o caso de alguém me querer humilhar. No post abaixo, troquei os cagalhões por cagalhotos - nunca estou contente com a minha obra. Cagalhões pareceu-me demasiado infantil, ao invés de cagalhotos, que soa mais culto e sério. Não quero lançar o pânico, mas é quase impossível amanhã não ir trabalhar.
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
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depois de pequenos testes aqui em casa, cheguei à conclusão que era capaz de me aguentar em pé alguns minutos, e então arrisquei ir à farmácia comprar qualquer coisa mais adequada que ben-u-ron, eu acho que ben-u-ron cura até a morte, saí e comecei a dar pequenos passos, o problema desta dor de hoje é que não me posso sentar para aliviar, fui então num semipânico de ficar com os ossos presos no meio da rua, sem me poder deitar no chão de forma discreta e sem dar nas vistas, como, apesar de tudo, consigo nesta casa que me abriga, comprei os comprimidos e decidi ir à pastelaria comprar qualquer coisa, que ainda não tinha comido nada a não ser duas maçãs, que era a única coisa que tinha em casa, derivado a ontem as pessoas do comércio não terem querido trabalhar, e quando vou a meio do caminho acontece-me o facto de ter pisado um enorme cagalhoto, ainda fresco, macio, aveludado, de tal forma que deslizei o pé para trás e esse gesto brusco provocou-me duas pontadas lacinantes nas costas, pareciam facas, era um cagalhoto imenso, imenso, que raio terá comido o bicho, há muitos anos que não pisava um cagalhoto fresco, sabes, estava a pedir um café e um pastel de nata e a perguntar-me duas coisas, como é que vou lavar os ténis se não me consigo dobrar, como é que o homem da pastelaria pode ignorar o drama que me aflige, parece-me tão óbvio que me doem as costas e que acabei de pisar um cagalhoto castanho claro, era castanho claro, esqueci-me de dizer, bom ano novo.
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começo este ano novo como se deve começar um ano novo: semiparalisado numa cama, o paralisado é o drama, o semi é o tem juizo, a muito custo fui buscar o computador à sala, depois fiquei numa posição ridícula para passar as dores e aqui estou eu, na horizontal, única posição suportável, já há duas semanas me tinham dado as dores nas costas e até faltei ao trabalho numa manhã, ia a pé e precisava de me sentar a cada cinco minutos para descansar as costas, é o fundo das costas, depois foi no natal uma dor de cabeça na véspera que foi até aos três dias seguidos, pensava que era um aneurisma e nem sequer pus os lençóis a lavar, que a rebentar que não fosse em roupa a cheirar a amaciador, que está caro, mas o ben-u-ron não confirmou o diagnóstico e os lençóis tiveram de ir a lavar, agora foram as costas outra vez, no fundo, parecem inflamadas, ou mal atarrachadas, não percebi ainda, começou ontem, e hoje nem me levantar levanto, e eu, que nunca estou doente, tenho andado doente, é uma novidade, um país estrangeiro, quando me ponho de pé toda a zona do meio do corpo, nas costas, no fundo das costas, parece que fica histérica, detesto gente histérica.
Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
"Olho para trás
e não vejo um entusiasmo, um projecto, uma manifestação qualquer desta ânsia de agitação que nasceu comigo, em que não me tenha sentido absolutamente só. E ninguém em entende. E os que não me entendem o melhor que de mim pensam é que sou um ambicioso banal atormentado por inconfessáveis vaidades. E se neste desentendimento, no qual as minhas qualidades me são muito menos perdoadas que os meus defeitos, tenho de viver sempre, eu não sinto que a vida me possa dar mais nem uma alegria nem uma compensação que me interesse. E, assim, chegado aos 35 anos sem outros horizontes, nem outra paisagem, condenado possivelmente para sempre a não realizar nunca completamente o menor dos meus desejos. Não faço ideia do rumo em que vou nem do destino para que sigo. Sei apenas que de momento me sinto absolutamente demolido. E ninguém me entende.”
Henrique Galvão, Um Herói Português, págs. 53-54
Henrique Galvão, Um Herói Português, págs. 53-54
Domingo, 11 de Dezembro de 2011
benfica, perto da padaria, de frente para a igreja
benfica, dois mil e onze
Vendedor de couves e pinheiros de natal no largo do Chafariz de Benfica, construído no longínquo ano de 1788. Destas bicas vinha água desviada do Aqueduto das Águas Livres para alimentar as pessoas e o gado. Estes chafarizes também se chamavam aguadeiros e eram fundamentais numa Lisboa setentista e oitocentista, onde não havia saneamento básico.
Este aguadeiro, apesar de ser um dos poucos monumentos do bairro de Benfica, está votado ao abandono. Não tem uma placa a explicar a sua história, não tem nada. A única coisa que lá puseram foi aquela tabuleta branca espetada no meio a dizer para não alimentarem os pombos.
Por aqui, por este aguadeiro, passou nos últimos três séculos muita gente pobre, camponeses, operários, mas também condes, aristocratas, burgueses, cléricos (a igreja de Benfica, que começou a ser construída em 1750, fica trinta metros abaixo), os grandes escritores do século dezanove, comerciantes abastados, políticos. Muitos viviam por aqui, outros (a maioria) vinham almoçar, jantar, cear ou passar férias campestres nos palacetes da zona. Passavam de tipóia vindos do Chiado ou indo a caminho dele. Alguns passeavam a pé com as damas, eles desembainhando as bengalas no ar, elas fazendo rastos na terra com as sombrinhas.
A memória destas coisas não está, nunca esteve, nunca estará, a cargo dos autarcas que nos têm governado e que sempre foram destruindo a cidade em nome do 'progresso'. A memórias está apenas nos livros, e está nestes tempos difícies que levam a que postais de antigamente ganhem cores de século vinte e um. Ei-lo, o vendedor de hortaliças, esperando clientes para as suas couves. Trezentos anos depois.
último sonho bom
por razões que desconheço, muitas vezes sonho com grandes caçadas em que sou perseguido por um leão, ou por lobos, ou ursos, ou leopardos, ou sou eu ou é alguém de que gosto, como a minha mãe, que já foi perseguida algumas vezes nestes sonhos, numa ocasião até foi por um touro endiabrado que subia escadas, ou amigos, como esta noite, em que estava a ser perseguido numa montanha por um jaguar, eu e uma amiga minha, entretanto separámo-nos e eu fui ter a um anfiteatro enorme onde estava uma gigantesca parede de vidro e por trás dela era só água, como se eu estivesse num aquário, então atirei uma pedra, aquilo rachou um bocado mas não partiu, saí e fui procurar a minha amiga, chamava por ela e só a ouvia a grunhir de volta, como se já tivesse sido atacada pelo jaguar e estivesse tão desfigurada que já não conseguia gritar, mas o mais estranho é antes mesmo de adormecer, naquele lusco-fusco entre o estado de consciência e o sono, quando muitas vezes me vêm à cabeça situações de quase-morte, principalmente relacionadas com precipícios, a mim e, mais uma vez, a pessoas de que gosto, o último sonho bom que tive foi tão longínquo que não me lembro, sou incapaz de sonhar que estou numa padaria a comer bolas de berlim e croissants doce de ovos sem engordar, sou incapaz de sonhar uma alegria, e isso até nem chateia nada, é só curiosidade.
Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011
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estava hoje a ler O Sentido do Fim, do julian barnes, livro que comprei para oferecer no natal a uma pessoa mas pedi ao senhor para não fechar o embrulho porque o queria ler antes, e a dada altura uma passagem fez-me chegar à conclusão que os amigos e a mãe e os filhos e os croissants doce de ovos são o pior obstáculo às pessoas que se querem suicidar, elas ultrapassam o mais difícil, que é a esperança e o amor em si próprias, mas os pormenores pequenos, como os amigos e a mãe e os filhos e os croissants doce de ovos, é que são a barreira intransponível, se não fosse isso e andava tudo aí a automatar-se, entretanto sonhei que tinha uma lesma gigantesca e viscosa aclopada ao pescoço, ia da cabeça até à anca, tinha vários filhotes espalhados pelo corpo, lesminhas lindas e castanhas e silenciosas e pegajosas, ontem vi uma maravilhosa explosão intergaláxica da minha janela aqui de benfica, não foi uma estrela cadente, vêem-se muitas de madrugada em noites de inverno de céu limpo, parecia uma daquelas medusas de luz que há no oceanário, apereceu subitamente no azul profundo e escuro e depois abriu a boca e desapareceu.
Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
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tenho escrito pouco porque o dia-a-dia não tem dado as devidas banalidades, porque de resto esgotou-se a paciência para aquilo a que se chama 'a vida', as grandes tiradas, as questões existenciais, os amores e desamores, a felicidade, os sonhos, tenho centenas de livros aqui em casa já com isso tudo lá enfiado, e acho um bocado sacana essa malta que anda a repetir o que já foi dito e escrito mas não se sabe ainda porque as pessoas não sabem nem viram nem leram tudo, uma sacanice, uma sabujice, há que ser honesto e ficar calado, ainda agora recebi os dois últimos livros da grande estrela da nova literatura portuguesa e tudo aquilo é malabarismo, não há amor, leveza, sinceridade, humildade, nada daquilo soa a natural, tudo soa a esforçado, a imposto, a exibicionista, é como o plástico da mariza em comparação com a carminho, leio aquilo e imagino o autor enfiado num quarto ou numa mesa de café a tentar ser... como é mesmo a palavra?: profundo, que é uma coisa que dói,
experimentei uma vez e jurei nunca mais, imagino-o a contorcer-se para tentar ao máximo interpor o seu cunho entre a realidade que vê e a que chega até nós pela sua escrita, a contaminar ao máximo essa escrita com perfume dolorido e intrincado e bafiento e exuberante, a tentar escrever de uma forma 'impressionante' aquilo que é simples, a tentar feiar o que é bonito, sem ter a mais pequena ponta de coragem de deixar bonito o que é bonito, simples o que é simples, fluido o que é fluido, sem vagar nenhum de tornar bonito o feio, simples o complicado, fluido o perro, mas isto somos nós aqui a dizer, que gostamos da escrita ao ritmo da respiração, que só temos paciência para dois escritores, o que deslumbra e o que esmaga.
experimentei uma vez e jurei nunca mais, imagino-o a contorcer-se para tentar ao máximo interpor o seu cunho entre a realidade que vê e a que chega até nós pela sua escrita, a contaminar ao máximo essa escrita com perfume dolorido e intrincado e bafiento e exuberante, a tentar escrever de uma forma 'impressionante' aquilo que é simples, a tentar feiar o que é bonito, sem ter a mais pequena ponta de coragem de deixar bonito o que é bonito, simples o que é simples, fluido o que é fluido, sem vagar nenhum de tornar bonito o feio, simples o complicado, fluido o perro, mas isto somos nós aqui a dizer, que gostamos da escrita ao ritmo da respiração, que só temos paciência para dois escritores, o que deslumbra e o que esmaga.
Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
Domingo, 27 de Novembro de 2011
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Sei que foi uma época infeliz porque Archie estava infeliz, e Archie era uma daquelas pessoas que não sabem lidar bem com a infelicidade. Ele próprio sabia disso. Lembro-me de ele me ter avisado uma vez, nos primeiros tempos do nosso casamento:
- Nunca te esqueças de que não sou muito bom quando as coisas correm mal. Não sou bom com doenças, não gosto de pessoas doentes e não suporto que as pessoas estejam infelizes ou aflitas.
Agatha Christie, Autobiografia, pág. 404
- Nunca te esqueças de que não sou muito bom quando as coisas correm mal. Não sou bom com doenças, não gosto de pessoas doentes e não suporto que as pessoas estejam infelizes ou aflitas.
Agatha Christie, Autobiografia, pág. 404
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011
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O Miguel gosta de observar uma coisa em cada mulher, e por vezes os encontros são tão fugazes e duram tão poucos minutos e tão poucos segundos que precisa de ser rápido mas ao mesmo tempo discreto a virar a cabeça ligeiramente para ter uma melhor perspectiva: ele quer observar a boca dela de perfil para ver quão perfeito é o coração que forma. O Miguel fica maravilhado, não é excitado, não há nada sexual aqui, quando descobre um lábio superior igual ao inferior, nem mais grosso nem mais fino, igual, proporcional, com a curva perfeita, coração. O Miguel cata obras-primas no meio da lixeira.
Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
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Já eu gostava de ser rei de Portugal para decretar a tristeza a todo o país - oficializá-la. É obrigatório ser triste, ser triste é bom, ser triste faz crescer, ser triste provoca erecções duradoras. Ou, dito de outro modo, ilegalizar a alegria. É proibido rir (excepto sarcasticamente), não é permitido a felicidade sem justificação régia. Tenho o pressentimento que haveria muito trabalhinho a fazer para prender essa canalha toda que para aí anda.
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No metro, o Miguel não se senta num banco onde estava uma pessoa com mau aspecto. Acha que a pessoa se levanta mas ainda fica lá mais um bocado. Mais ou menos o tempo que demora a água a sossegar depois de lá cair uma pedra. O Miguel é muito inteligente.
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Não ler o que escreves - eis uma prova de amor, às vezes até de gratidão. Escrever mal, na forma e principalmente no conteúdo, chega a ser humilhante para quem gosta de palavras. Por isso também apago muito do que escrevo aqui - não sou adepto de automutilações, tenho piedade de mim e só deixo o que não me envergonha. Percebo muito bem porque amam as mulheres escritores feios e porque é tão difícil a uma pessoa bonita usar as palavras para maravilhar - para que precisa de palavras bonitas alguém que nasceu com olhos verdes? Escrever encanta, mas lamentavelmente destrói em igual proporção. Mas não te preocupes - sou óptimo a poupar embaraços alheios, devo isso a quem gosto, é quase a única maneira, de entre os meus fracos recursos, de retribuir. Não ler. Mil vezes prefiro surpreender a pessoa na sanita - porque nisso empatamos todos. Já no resto... Mas eu não quero ganhar a ninguém, sabes. Já não quero.
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011
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o Miguel estava a sair do prédio onde mora quando viu pela porta um velho no chão sem se conseguir mexer porque tinha caído da cadeira de rodas quando a mulher que o empurrava, também muito velha, não reparou no desnível do passeio, o velho tentava gatinhar mas estava completamente perro, o boné tinha tombado na estrada, era uma cena muito triste, e então o Miguel voltou para trás e foi à caixa do correio ver se tinha correio, tinha lá qualquer coisa, que levou para cima, abriu a porta de casa e depois foi à janela ver se o velho já estava levantado, estava, uma mulher que passava, e que agora lhe falava, deve tê-lo posto na cadeira de rodas, e depois a velha ia já a empurrar a cadeira a dizer obrigado, que vamos para o médico, o Miguel reparou que o velho tinha um pequeno golpe de sangue na cabeça, ou isso lhe pareceu, a janela era alta, depois desceu e saiu finalmente do prédio, o Miguel precisa de se confessar, está cada vez mais triste.
Terça-feira, 8 de Novembro de 2011
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no prédio onde trabalho há um call center no primeiro andar, à entrada os assistentes fumam cigarros que depois abandonam a meio num cinzeiro barra caixote do lixo cinzento e preto, ficam ali os cigarros a morrer, quando um cigarro arde sozinho, sem ninguém que o oriente, chega ao filtro e o filtro arde também, o cheiro de um filtro queimado deverá assemelhar-se às piras funerárias de Varanasi, ou àquele cheiro que havia ali ao pé do Jardim da Estrela, então a entrada do sítio onde trabalho é um crematório, os assistentes, novos e energéticos e robustos e gordos, trabalham sentados e chamam o elevador para descer do primeiro andar para o rés-do-chão, chegam à entrada, puxam de um cadáver e sentam-se outra vez para o fumar nuns murinhos de uns canteiros que lá há de lado, devem molhar as pontas dos cigarros com as bocas cheias de cuspe e baton, enquanto discutem as vendas, agressivas, que fizeram a quatrocentos euros mês, um deles tem uma rodela branca de mais de cinco centímetros enfiada em cada um dos lóbulos das orelhas, como algumas tribos africanas têm discos de madeira e osso nas bocas, não há nada para ver num rico excepto do que é feito o seu interior, porque a forma como se veste e comporta tem uma conduta determinada, enquanto o exterior de um pobre é infinitamente mais variado, só há uma ou duas maneiras de ser rico e belo mas milhares para se ser pobre e feio, por vezes entra no autocarro ou no metro um feio ainda mais feio do que o que acabara de entrar antes dele e de uma forma completamente diferente de ser feio, e depois mais outro, e mais outro, e mais outro, uma maravilhosa e incrível variedade de feiura, um rico é um animal enclausurado, um pobre anda à solta.
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Esta noite sonhei que o José Mourinho me convidou para jogar no Real Madrid, agora mesmo, com esta idade. Foi bonito. Eu aceitei o convite e quem me deu boleia para o estágio foi o Fábio Coentrão. Lembrou-me de ele pôr o saco da marmita e dos cremes para a cara na bagajeira do carro, que era um BMW todo bom e branco. Depois acordei com os pés gelados e apanhei chuva e greve nos transportes públicos e por causa disso fui todo ensanduichado no metro com uma família de chineses à frente, um trolha atrás e uma mulher ao lado a dizer que agora é que ia começar a falta de civismo devido ao facto, não provado em tribunal, de a terem pisado. A realidade, como sabes, é mais dura que os sonhos, mas também não é preciso abusar.
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
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hoje sentei-me no metro ao lado de uma mulher que ia a ler o órgão de mass media onde tenho a oportunidade de trabalhar, ainda que o faça temporariamente, até ao dia em que a direcção descortinar a minha incompetência, que é factual, evidente e notória, daí a minha estranheza, não estou a brincar nem a fazer género, sou mesmo uma nódoa, e então a mulher virou uma página e apareceu um artigo escrito por mim, é sempre curioso estar no metro ao lado de uma pessoa que está a ler um artigo escrito por nós e ela não faz ideia, queremos saber se o vai ler ou não, quanto tempo demora, etc, é um pouco como espiar uma pessoa na casa de banho a lavar as partes, sabes, ou ao contrário, o que é bastante pior, e então a mulher viu o título e as fotos e virou a página logo para o artigo seguinte, está tudo bem.
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
a caneta
hoje milhares de casacos homossexuais saíram do armário, com casacos vestidos as pessoas ganham volume e ocupam mais espaço no metro, comecei a ler um livro chamado 'as mulheres na implantação da república', de uma senhora chamada Fina d'Armada, e que começa a introdução assim: 'é com imensa alegria que vos apresento a minha obra', é o melhor começo de introdução de sempre, fiz eu um estudo mais tarde enquanto comia um halls ice sem açúcar, um dia quero também escrever um livro com uma introdução a começar assim, ou então uma coisa do género 'antes de mais boa tarde, que é por causa das merdas', gosto muito da expressão, e depois acabava com um 'está tudo bem',
lisboa é tão pequena que ainda outro dia comprei o último livro da dulce maria cardoso e no dia seguinte cruzei-me com ela num jardim que há aqui, ali como quem vai para o coiso, ela olhou-me, muito branca em olhos que me pareceram azuis, e eu olhei para ela e foi assim, no mesmo sítio onde há uns meses estava eu sentado e passou o eduardo lourenço muito velhinho, em passinhos ritmados de passarinho, mas bruscos, mecânicos, retesados, enferrujados, assim para a frente, não levantava os pés mais do que alguns milímetros, parecia que ia eternamente a limpar a sola dos sapatos, ou então, lembro-me de me lembrar na altura, parecia aqueles malabaristas em cima de bolas gigantes, têm de dar passinhos muito rápidos e coordenados para a frente ou para trás, então o eduardo fazia isso com o planeta, que é a única coisa redonda que agora me ocorre debaixo dos pés dele,
a mulher do café, feia, gordinha, de cabelos aos caracóis pintados de ferrugem, mãos de homem, grandes cuecas abraçando um grande rabo, anéis feios de várias cores em vários dedos, triste, insonhadora, desiludida, tinha hoje a caneta presa à camisa mas metida para dentro, com o bico encafuado nas mamas, a tilintar entre as duas no levantar dos cafés e no agachar do compal pêssego metido na prateleira de baixo, uma última sensualidade, involuntária, presente, notória, de tal forma que te conto nesta altura do dia e da minha vida o tamanho das cuecas da mulher do café porque as olhei quando ela se virou, e o soutien era preto,
posso indicar o exacto sítio daquele jardim onde o trajecto da dulce maria cardoso na semana passada se cruzou com o do eduardo lourenço há uns meses, longe de mim sugerir um romance entre os dois, interessa-me apenas imaginá-lo com quem se poderia prender assim a alguém a partir de um cruzamento fugaz num jardim ou numa praceta não fosse a fatalidade de minutos, horas ou dias, a felicidade é uma coisa de sorte, sabes, é o que dizem e eu acredito.
lisboa é tão pequena que ainda outro dia comprei o último livro da dulce maria cardoso e no dia seguinte cruzei-me com ela num jardim que há aqui, ali como quem vai para o coiso, ela olhou-me, muito branca em olhos que me pareceram azuis, e eu olhei para ela e foi assim, no mesmo sítio onde há uns meses estava eu sentado e passou o eduardo lourenço muito velhinho, em passinhos ritmados de passarinho, mas bruscos, mecânicos, retesados, enferrujados, assim para a frente, não levantava os pés mais do que alguns milímetros, parecia que ia eternamente a limpar a sola dos sapatos, ou então, lembro-me de me lembrar na altura, parecia aqueles malabaristas em cima de bolas gigantes, têm de dar passinhos muito rápidos e coordenados para a frente ou para trás, então o eduardo fazia isso com o planeta, que é a única coisa redonda que agora me ocorre debaixo dos pés dele,
a mulher do café, feia, gordinha, de cabelos aos caracóis pintados de ferrugem, mãos de homem, grandes cuecas abraçando um grande rabo, anéis feios de várias cores em vários dedos, triste, insonhadora, desiludida, tinha hoje a caneta presa à camisa mas metida para dentro, com o bico encafuado nas mamas, a tilintar entre as duas no levantar dos cafés e no agachar do compal pêssego metido na prateleira de baixo, uma última sensualidade, involuntária, presente, notória, de tal forma que te conto nesta altura do dia e da minha vida o tamanho das cuecas da mulher do café porque as olhei quando ela se virou, e o soutien era preto,
posso indicar o exacto sítio daquele jardim onde o trajecto da dulce maria cardoso na semana passada se cruzou com o do eduardo lourenço há uns meses, longe de mim sugerir um romance entre os dois, interessa-me apenas imaginá-lo com quem se poderia prender assim a alguém a partir de um cruzamento fugaz num jardim ou numa praceta não fosse a fatalidade de minutos, horas ou dias, a felicidade é uma coisa de sorte, sabes, é o que dizem e eu acredito.
Terça-feira, 18 de Outubro de 2011
Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011
Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
pep
num desgraçado dia de fevereiro do ano passado, algures na fronteira de marrocos com a mauritânia, houve uma pequena história que ficou por contar, não é uma grande história, é uma personagem conhecida fugazmente que sugestiona uma história, é o Pep, estou a lembrar-me das coisas agora, do contexto, dos contornos, e está-me a vir pó ao nariz, moscas, cheiro a gás, cães magros sem carraças para alimentar, áfrica seca, rude, árida, malcheirosa, áfrica marroquina,
estava eu num café e à minha frente, a trinta metros, ficava uma estrada, uma perfeita língua recta de alcatrão, e nessa língua parava já há várias horas uma fila de carros e camiões para entrar na mauritânia, a fronteira era a vinte metros, passava-se uma cancela cheia de guardas, com edifícios pequenos de lado a lado, camiões militares ao fundo, as horas de espera serviam para mostrar quem mandava, assim como o tamanho das armas e dos soldados, pequeno gozo freudianocolonial, e depois havia uma zona sem aparente dono, uma terra de ninguém de alguns quilómetros até à entrada propriamente dita na mauritânia, lembro-me que na altura fiquei curioso com a terra de ninguém, nunca antes tinha estado numa terra de ninguém, e também não seria nesse dia, à volta havia apenas deserto, os tais cães, as ervas secas em bolas ao vento, eu sentado no café, cheio de moscas, as tais moscas, o cheiro a gás, o tudo se sentir seco e pegajoso,
o Pep falava ao telefone, também ele tinha sido apanhado em falso, 'ainda há duas semanas passei aqui sem problemas', dir-me-ia mais tarde, o que me deixou menos fatalista por partilhar o azar com alguém tão experiente, o Pep ia regressar a daklha de táxi, tal como eu, e depois ia apanhar um avião para las palmas, onde ia pedir o visto no consulado da mauritânia, falava com uma mulher da agência de cigarro na boca, navegando no à vontade dos bonacheirões, reis amadores, descontraídos, desenrascados, seres que entram numa sala sem olharem para os tapetes, diferentes dos que olham e têm medo de sujar, andava pelo quarenta anos, mas parecia cinquenta, haveria de me dizer mais tarde que conhecia áfrica toda ao volante de um camião, um implacável conta-quilómetros que se via no rosto, nasceu em marrocos, o pai era espanhol e tinha ido para lá jogar futebol nos anos sessenta, foi quando nasceu, penso que mais tarde voltou para espanha, mas viveu tempo suficiente para saber as duas línguas, francês e árabe, falava perfeitamente árabe, além do espanhol dos pais, logo do português também, e do inglês, que era fácil, e assim o guia lonely planet africa de quatrocentas páginas que mandara vir pela amazon estava ali noutro formato à minha frente, sentado numa cadeira branca suja, de lá de dentro ouvia-se a televisão numa telenovela marroquina,
o Pep trabalhava agora num aeroporto qualquer espanhol, mas antes correu áfrica num camião de mercadorias, tinha-a entranhada, sabia-lhe as manhas, os timings, as curvas, as línguas, os dialectos, os pássaros, amanheceres, sofrimentos, o calor, a secura, deve ter sido por isso que decidi oferecer o guia da lonely ao casal de franceses que me tinha dado boleia até à fronteira, foi ele que puxou conversa no café, disse-me que se preparava para ir passar o verão todo ocupado com uma equipa de filmagens italiana que ia fazer um documentário no mali, ele seria o guia, trabalho muito bem pago, e poucas vezes invejei tanto alguém na vida como ali no meio daquele cheiro a gás, ainda a ressacar de toda a trampa que tinha acontecido naquele dia, bebíamos os dois café com leite, ele tinha um maço de cigarros espanhol no bolso da camisa branca, não tinha falta de cabelo, a pele ia já tostada do sol, mãos gordas e duras, nunca se queixou da viagem que fizemos no táxi até dakla, a pior das viagens, sete homens enfiados num carro duas horas, quando saiu levantou os braços e esticou-os ao alto, depois baixou-os até ao chão, levantou a cabeça e sorriu antes de entrar numa loja para comprar cigarros,
era o mesmo sorriso que vira horas antes, quanto estávamos os dois à espera do táxi e entretanto tinham começado umas negociações com os taxistas e os angariadores, preços, horas, preços, número de passageiros, preços, sempre preços, a tensão do terceiro mundo tentando enganar o primeiro, espécie de gestão de balancete geoestratégico, e o primeiro tentando ao máximo não ser muito enganado sabendo que o pode ser até um certo ponto, o Pep falou sempre com eles em francês, e depois eles, os árabes, viravam-se uns para os outros e começavam a falar entre eles, e o Pep punha-se a ouvir, ar meio abstraído, ausente, serenamente aparvalhado, e eu perguntei-lhe 'eles sabes que falas árabe?', e ele: 'não, não..., nunca, nunca digo...", sorriu aquele sorriso sereno, passe a piroseira do palavreado, todo o calo do mundo estava ali naquela doçura e serenidade, imaginei-o depois muitas vezes em negociações algures no mali, com o mesmo sorriso, o mesmo ar negligente, o mesmo tabaco espanhol no bolso da camisa, a mesma camisa, a mesma barba de quatro dias, aquele aspecto de galã de filme a preto e branco, escutando um dialecto qualquer, fingindo alheamento, sempre sorrindo, sereno, aqui ou ali rude, para impor, o cínico mais charmoso, um ideal, Pep era sobretudo um ideial.
estava eu num café e à minha frente, a trinta metros, ficava uma estrada, uma perfeita língua recta de alcatrão, e nessa língua parava já há várias horas uma fila de carros e camiões para entrar na mauritânia, a fronteira era a vinte metros, passava-se uma cancela cheia de guardas, com edifícios pequenos de lado a lado, camiões militares ao fundo, as horas de espera serviam para mostrar quem mandava, assim como o tamanho das armas e dos soldados, pequeno gozo freudianocolonial, e depois havia uma zona sem aparente dono, uma terra de ninguém de alguns quilómetros até à entrada propriamente dita na mauritânia, lembro-me que na altura fiquei curioso com a terra de ninguém, nunca antes tinha estado numa terra de ninguém, e também não seria nesse dia, à volta havia apenas deserto, os tais cães, as ervas secas em bolas ao vento, eu sentado no café, cheio de moscas, as tais moscas, o cheiro a gás, o tudo se sentir seco e pegajoso,
o Pep falava ao telefone, também ele tinha sido apanhado em falso, 'ainda há duas semanas passei aqui sem problemas', dir-me-ia mais tarde, o que me deixou menos fatalista por partilhar o azar com alguém tão experiente, o Pep ia regressar a daklha de táxi, tal como eu, e depois ia apanhar um avião para las palmas, onde ia pedir o visto no consulado da mauritânia, falava com uma mulher da agência de cigarro na boca, navegando no à vontade dos bonacheirões, reis amadores, descontraídos, desenrascados, seres que entram numa sala sem olharem para os tapetes, diferentes dos que olham e têm medo de sujar, andava pelo quarenta anos, mas parecia cinquenta, haveria de me dizer mais tarde que conhecia áfrica toda ao volante de um camião, um implacável conta-quilómetros que se via no rosto, nasceu em marrocos, o pai era espanhol e tinha ido para lá jogar futebol nos anos sessenta, foi quando nasceu, penso que mais tarde voltou para espanha, mas viveu tempo suficiente para saber as duas línguas, francês e árabe, falava perfeitamente árabe, além do espanhol dos pais, logo do português também, e do inglês, que era fácil, e assim o guia lonely planet africa de quatrocentas páginas que mandara vir pela amazon estava ali noutro formato à minha frente, sentado numa cadeira branca suja, de lá de dentro ouvia-se a televisão numa telenovela marroquina,
o Pep trabalhava agora num aeroporto qualquer espanhol, mas antes correu áfrica num camião de mercadorias, tinha-a entranhada, sabia-lhe as manhas, os timings, as curvas, as línguas, os dialectos, os pássaros, amanheceres, sofrimentos, o calor, a secura, deve ter sido por isso que decidi oferecer o guia da lonely ao casal de franceses que me tinha dado boleia até à fronteira, foi ele que puxou conversa no café, disse-me que se preparava para ir passar o verão todo ocupado com uma equipa de filmagens italiana que ia fazer um documentário no mali, ele seria o guia, trabalho muito bem pago, e poucas vezes invejei tanto alguém na vida como ali no meio daquele cheiro a gás, ainda a ressacar de toda a trampa que tinha acontecido naquele dia, bebíamos os dois café com leite, ele tinha um maço de cigarros espanhol no bolso da camisa branca, não tinha falta de cabelo, a pele ia já tostada do sol, mãos gordas e duras, nunca se queixou da viagem que fizemos no táxi até dakla, a pior das viagens, sete homens enfiados num carro duas horas, quando saiu levantou os braços e esticou-os ao alto, depois baixou-os até ao chão, levantou a cabeça e sorriu antes de entrar numa loja para comprar cigarros,
era o mesmo sorriso que vira horas antes, quanto estávamos os dois à espera do táxi e entretanto tinham começado umas negociações com os taxistas e os angariadores, preços, horas, preços, número de passageiros, preços, sempre preços, a tensão do terceiro mundo tentando enganar o primeiro, espécie de gestão de balancete geoestratégico, e o primeiro tentando ao máximo não ser muito enganado sabendo que o pode ser até um certo ponto, o Pep falou sempre com eles em francês, e depois eles, os árabes, viravam-se uns para os outros e começavam a falar entre eles, e o Pep punha-se a ouvir, ar meio abstraído, ausente, serenamente aparvalhado, e eu perguntei-lhe 'eles sabes que falas árabe?', e ele: 'não, não..., nunca, nunca digo...", sorriu aquele sorriso sereno, passe a piroseira do palavreado, todo o calo do mundo estava ali naquela doçura e serenidade, imaginei-o depois muitas vezes em negociações algures no mali, com o mesmo sorriso, o mesmo ar negligente, o mesmo tabaco espanhol no bolso da camisa, a mesma camisa, a mesma barba de quatro dias, aquele aspecto de galã de filme a preto e branco, escutando um dialecto qualquer, fingindo alheamento, sempre sorrindo, sereno, aqui ou ali rude, para impor, o cínico mais charmoso, um ideal, Pep era sobretudo um ideial.
Domingo, 9 de Outubro de 2011
Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
azul suave
há uma mulher que todos os dias por volta das dez e um quarto da manhã apanha o metro no colégio militar, hoje estava a comprar bilhete e passou ela a correr, sinal de que sabe de cor o exacto minuto a que passa o comboio, vem todos os dias com a mesma roupa, há meses que a vejo assim, sempre igual, tem pele de mármore e outro dia pintava-se delicadamente num espelho de bolso, o cabelo sempre apanhado, os óculos simples e elegantes, nariz pequeno, é óptima para ser observada porque está sempre focada no infinito com olhos pequenos e determinados, é magra, veste saia cinzenta pelo joelho, camisa de alças azul suave, mochila cinzenta e azul suave às costas, sempre a mesma saia, a mesma camisa, a mesma mochila, os mesmo olhos, nunca se senta, fica sempre em pé e sai em sete rios, tento imaginar o que há em sete rios onde ela possa trabalhar, parece uma pianista, mas ninguém toca piano em sete rios, e não imagino uma pianista sempre com a mesma roupa, ora a imagino uma bomba sexual, ora frígida, a profissão obriga-me a desconfiar de tanto cinzento, tanta harmonia com o azul suave, tanta determinação, tanta precisão, controlo, tanto cabelo sempre apanhado e nunca solto, cabelo preto, deduzo que tenha várias saias iguais, várias camisas iguais, os sapatos são de salto curto e grosso, e pretos, como os cabelos, tem maminhas pequenas, também nisso é sempre igual, todos os dias as traz pequenas.
Sábado, 1 de Outubro de 2011
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