terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

só para informar

que sábado vou à luz ver o benfica com o belém. e novamente com um bilhete oferecido. se vocês soubessem o que a malta amiga me tem oferecido e/ou emprestado nos últimos meses ficavam de boca aberta (só não conto tudo porque este blog não é da joana). seja como for, constata-se que sou cada vez mais um tipo espectacular e popular.

ontem recebi uma massa no correio,

que mais não é do que o retorno de um investimento numa mercearia muito grande que há cá no nosso país, vou depositar a massa na considerável dependência da caixa em benfica, onde à chegada constato a existência de uma apreciável multidão de belíssimos exemplares da minha raça bovina predilecta, os lisboetas, e estava tanto gado à espera porque estava a quantidade impressionante de uma pessoa a atender, vou ao coisinho das senhas e já lá estava uma caída no buraquinho, era o sessenta e um, não reparei logo, carrego e sai a minha senha, que era o sessenta e dois, quando tiro a senha é que reparo na que lá estava e que era um número abaixo, de modo que podia ter ficado com ela, sempre era uma pessoa a menos, mas como estava uma manada sentada nos bancos a olhar o forasteiro que acabou de entrar no saloon, raciocinei rápido e levei a sessenta e dois, ó porra, que é que querem?, achei que fosse alguma velha que carregou e se esqueceu e estava a voltar para trás e armava-se ali uma cowboyada e preferi não me chatear logo de manhã, eu nestas coisas dos bancos e das repartições públicas gosto sempre de ir munido de uma velhota, um puto de colo ou um ocasinal deficiente motor que encontre na rua a fim de ter prioridade na fila, não tendo nenhum destes bens de primeira necessidade e tendo feito a parvoíce de não levar a senha sessenta e um sujeitei-me à lei de murphy, que diz que o que pode correr mal corre mesmo, bom, como faltavam uns quinze números e estava a quantidade impressionante de uma pessoa a atender na considerável dependência da caixa em benfica, fui ali ao fundo tomar o pequeno almoço, que consistiu num palmier simples, um café duplo e a bíblia, quando regresso ao banco e é chamada a senha sessenta e um reparo que foi rapinada, naturalmente, por uma velhota, eu não tenho nada contra velhotas, reparem, mas as velhotas empatam-me os passeios e as filas, e foram ali mais dez minutos à espera no meio do gado, dez minutos que teriam sido poupados se estivesse de rápido raciocínio, que era, diga-se, manifestamente impossível devido ao jejum pasteleiro em que me encontrava àquela hora, saio do banco e começa a chover, um grande aborrecimento se por um acaso do destino se acabou de pôr roupa a secar, uma chatice, um tipo mete a pele no estendal, vai ali abaixo depositar massa e comer bolos e sucede o que acabo de informar, é a incerteza climática dos novos tempos, meus amigos, temos de nos conformar, chego à porta de casa de língua de fora, todo molhado, e após demorados apalpanços no baixo ventre constato que me esqueci das chaves dentro de casa, chaves, essas, cuja segunda via só poderei obter ao final do dia, e assim me vi com um dia inteiro obrigado a entrar na selva para matar tempo, à chuva, pior ainda: a malta amiga toda a trabalhar, ninguém disponível para andar nos carrinhos de choque, entretanto estabeleço um meticuloso plano de ocupação de tempos livres, que exclui o inatel, mas envolve a utilização do underground, utilização, essa, onde me viria a enganar duas vezes, onde queria ir para o sentido odivelas pus-me a postos no sentido rato, onde era para o sentido cais-do-sodré montei tenda no sentido amadora-este, isto tudo, meus amigos, porque recebi massa, não sei o que me deu ontem, são os últimos dias por cá antes da grande viagem, isto promete, vocês vão ver, vão ser dias em cheio, vão, vão.

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

ri-te, ri-te, parvalhão

estou em contagem decrescente para partir (faltam oito dias)

amman, jordânia - as fotos são deste burgo e custam trezentos euros cada, com o iva já todo metido

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

o que é a vida, no fundo?,

é como o elevador, que ora sobe, ora desce, ora fica no hall à espera que apareça alguém, isto para dizer que nos últimos dias aconteceu o facto, já aqui relatado, de uma senhora idosa ter passado a mala para outro braço depois de me ver, além, claro, do espectacular acontecimento de alguém me ter perguntado se estava interessado num curso de iniciação à informática, pois bem, meus amigos, hoje uma jovem senhora furou o meu perímetro de segurança anti-lisboetas para, devidamente munida de uns panfletos e de um sorriso compreensivo, indagar se eventualmente no meu património se encontra algum barco à vela, espero que com este episódio tenham percebido de vez que o meu aspecto exterior é espectacular.

dia a dia

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

tantas viagens pelo mundo depois, um curso superior de cinco anos depois,

tantos anos de trabalho depois, tantos livros lidos, uma viagem solitária de cinco meses pelo pior continente em perspectiva, tanta coisa, meus amigos, já passou por esta carcaça, mas pelos vistos nada transparece para fora. ontem, num centro comercial, abordaram-me para saber se estava interessado em tirar um curso de iniciação à informática. declinei respeitosamente.

dia a dia

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

hoje fui apanhar picas,

três picas mais exactamente, a meningite e duas espectaculares febres, a amarela e a tifóide, devido a uma oportuna promoção encomendei ainda ao doutor duas hepatites, a e b, mas quando fui à farmácia levantá-las estavam esgotadas, o que me aborreceu, pelo menos deu para apreciar as jovens farmacêuticas, que ficavam espectacularmente bem defronte das caixas laranja para a garganta, mais ao fundo estava um senhor a tilintar entre-pernas, a senhora enfermeira das picas era de riso difícil, vou-vos ensinar como é que se sacam sorrisos a pessoas difíceis, eu sou difícil e sei bem como é que me apanham, a dada altura houve ali uma querela por causa da vacina das hepatites, que tem de ser em várias tomas, ora eu não posso, vou-me ausentar daqui a uns dias e só volto no verão, como é que fazemos isto?, a senhora enfermeira diz-me assim:
- você vai comprar a vacina na farmácia e mete no frigorífico ao pé dos legumes; quando voltar no verão traz cá.
- mas eu não tenho legumes...
- não interessa, meta no frigorífico.
- mas eu estou a pensar desligar o frigorífico...
- hum... você tem alguém conhecido?, tem mãe, não tem? então pronto.

e assim lhe saquei dois sorrisos, viram como se faz?, depois foi-me dar as picas nos meus espectacularmente curvilíneos braços, antes disso disse-me assim:
- você depois meta gelo no braço, hein...
- isso é que vai ser difícil, não tenho gelo em casa...

esta ela não respondeu, depois deu-me as picas, duas no braço esquerdo e uma no direito, isto porque não podia levar três picas no mesmo braço, a senhora enfermeira explicou-me que tem a ver com compatibilidades, há uma vacina que se dá bem com outra, mas está chateada com a outra, de modo que isto tem de ser feito como antigamente os treinadores a distribuir os quartos entre os jogadores, eu cheira-me que são as duas febres que não se gramam, a amarela está sempre a pôr pirraça na tifóide porque mata mais pessoas e por aí adiante, seja como for o certo é que levei picas nos dois lados, levanto a cabeça e indago pertinentemente:
- então, agora como é que ponho gelo nos dois braços ao mesmo tempo?

ela faz 'hum' e franze o sobrolho, que é como quem diz 'desemerda-te', ela não o disse, mas saquei-lhe outro sorriso, viram?, ela também me disse para tomar ben-u-ron, eu não tenho ben-u-ron, estive quase a dizer-lhe isso, mas preferi dizer que só tinha aspirinas,

eu sei que estou chato, mas conto mais, havia aqui uma dicotomia entre a enfermeira e o médico, a enfermeira alertou-me para a necessidade de tomar a vacina da hepatite b na medida em que a posso apanhar 'por contacto com sangue, suor, saliva e'.... ela ia a dizer sémen ou algo do género, mas mudou de tom, fez uma volta à rotunda e voltou ao que interessa para falar em 'sexo', assim com a palavra dita em seco e a despachar, já o médico foi mais explícito, disse-me que podia apanhar hepatite b se resolvesse 'dar uma pinocada', achei a coisa mais própria para uma conversa a sós entre dois homens adultos, o médico era simpático na sua singularidade, era nascido em angola, 'com muito orgulho', tinha sangue pisado numa unha, aliança de casado, a bata tinha um bolso meio rasgado de lado devido ao peso de um telemóvel grosso, canetas e outras coisas mais, o casaco estava na cadeira, com o forro virado para fora, onde se via a marca 'sílvia & sister', noventa por cento do tempo da consulta falou directamente para a mesa, parecia que quem de facto ia viajar era a mesa, eu estava a ouvir à varanda, de vez em quando metia-me na conversa e fazia perguntas, o médico respondia para a mesa, como se a mesa fosse muda e me tivesse designado seu porta-voz, tinha mais coisas para contar, mas não me apetece.

estou em contagem decrescente para partir (faltam 13 dias)

algures na índia - as fotos são deste burgo (continuam a duzentos euros cada)

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

ontem, num agradável bar do bairro alto,

deparei com a presença de soraia chaves, reparei que soraia passava de um lado para o outro de beicinho feito nos lábios enquanto meneava o cabelo apanhado atrás, tipo cauda de equídeo, estava vestida de pele branca e roupa preta, tinha as bochechas ligeiramente rosáceas e maquilhagem imperceptível, por volta das duas da manhã foi à casa de banho, de referir ainda que, logo no início da noite, quando ainda estava ao balcão, ela olhou-me mas rapidamente se desinteressou, eu também, soraia estava acompanhada por uma amiga e por um amigo, que por acaso até sei quem é, mas não digo, só informo que é mais alto do que eu, usa óculos e de vez em quando acariciava os joelhos da soraia, à procura do menisco, tal qual um fisioterapeuta, acho isto bonito.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

tenho o plano feito,

já comi palmiers recheados em todas as pastelarias da minha zona de residência, já sei onde eles são maiores, onde estão os mais minguados, os de creme mais enjoativo, os mais tostados, tenho de cor os preços exactos, sabiam que numa distância de trinta metros o preço de um palmier recheado pode variar dez cêntimos?, acho isto maravilhoso, tenho este plano todo na cabeça, fiz-lhe as coordenadas, este, oeste, sul, norte, a minha própria rosa dos ventos dos palmiers recheados, alguém alguma vez fez isto?, claro que não, estou a pensar escrever um livro, hoje em dia toda a gente escreve livros, porque é que eu não hei-de escrever um livro sobre palmiers recheados?,

isto para dizer que estou sem assunto, apetece-me escrever mas não tenho assunto, tudo nesta lisboazinha me deprime e repugna, bovino pachorrentamente pelas mesas dos cafés, arrasto as duas patas e rumino bolos à sombra enquanto procuro a centelha, a tal centelha, estou cansado de ver tantos amigos infelizes, gente boa entregue a imbecis, desolados pelas melhoras que não se perspectivam, a bicharada instalou-se de vez, o idiota ascendeu ao trono, o bom vai sobrevivendo, os muito bons desistiram e ninguém sabe deles, porque é que nos calhou viver nestes tempos?, não sei, ou, como dizia o tolkien, não temos hipótese nenhuma de voltar atrás e não vale a pena pensar em recomeçar, só nos resta decidir o que é que fazemos com estes tempos que nos calharam, o que fazer com eles?, eu cá faço estudos de mercado sobre palmiers recheados, sempre ouvi dizer que nesta vida temos de ser originais.

estou em contagem decrescente para partir (faltam 15 dias)

 
bangkok, tailândia - as fotos são deste burgo (estão a duzentos euros cada)

sábado, 30 de Janeiro de 2010

dia a dia

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

dia a dia

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

dia a dia

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

dia a dia

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010


sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

bom, no meio disto tudo ainda se arranja sete motivos para rir


anlong veng, cambodja - foto david longstreath


beit nuba, cisjordânia - foto muhammed muheisen


el barrancon, colômbia - foto rodrigo arangua


feyzabad, afeganistão - foto anja niedringhaus


manila, filipinas - foto dennis m. sabangan


praga, república checa - foto petr david josek


yangon, birmânia - foto abed al hafiz hashlamoun

quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

passou mais um natal

e ninguém me ofereceu aquele pacote que há na fnac com uns filmes do cassavetes, verdade que nunca disse a ninguém que gosto de cassavetes, mas há coisas que se notam logo, parece-me evidente que sou filho de cassavetes, este vídeo é do 'noite de estreia', realizado em mil novecentos e setenta e sete, ano que começou com o cassavetes a fazer a sua obra prima e que terminou com a morte do chaplin no dia de natal, são demasiadas emoções para um ano só, até porque junho me pariu numa fábrica de lâmpadas que há no centro de lisboa, e assim me vi metido entre a apoteose e o ocaso de quem me fez melhor pessoa, depois descobri os livros e as bolas com creme, mas isso foi mais tarde.


domingo, 10 de Janeiro de 2010

olhar mais sete vezes


jalozai, paquistão - foto vincent thian


peshawar, paquistão - foto emilio morenatti


sher gar, paquistão - foto greg baker


swabi, paquistão - foto aamir qureshi


swabi, paquistão - foto emilio morenatti


swat valey, paquistão - foto mohammad sajjad


swabi, paquistão - foto emilio morenatti

sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

sete olhares


allahabad, índia - foto rajesh kumar singh


anlong veng, cambodja - foto david longstreath


cadiz, espanha - foto cristina quicler


galle, sri lanka - foto gurinder osan


jalozai, paquistão - foto farooq naeem


nairobi, quénia - foto stephen morrison


nyaungdon, birmânia - foto khin maung win

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

dia a dia


quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

anda cinema por aí nas esquinas,

estavam duas asas de pombo aqui num passeio, uma por cima da outra, ainda com penas, ainda frescas, arrancadas do corpo, sem o corpo, mais à frente uma tablete vazia e cor-de-rosa de pílulas atiradas ao chão, mais à frente duas miúdas a sair do talho com fiambre enrolado num papel branco, depois comeram uma fatia, junto à árvore um sapato de mulher sem par, em cima da caixa de electricidade uma torradeira, lá ao fundo um carrinho de supermercado, e o velho que pegou numa taça ao pé do lixo, eu apareço para o papel reclicado e ele vai-se embora, aliás, vai dar uma volta lá abaixo, envergonhado de mim, fui-me embora, olhei para trás e ele tinha regressado ao lixo, estava um livro num saco de jornais, tive vontade de ver que livro era mas tive vergonha de catar sacos à frente dele, e ele de mim, podíamos ter chegado a um acordo, eu vejo este saco, você vê o outro, mas somos todos orgulhosos, eu não vi que livro era, ele teve de ir dar uma volta para disfarçar, mas levou aquela taça, que parecia de prata, e parecia uma saladeira, o que sei é que há pares de sapatos deixados em cima de caixas de electricidade e no dia seguinte já não estão lá, anda aí gente de noite, anda, o que aconteceu ao pombo?, quem te cortou as asas?, de quem era o pé que apareceu numa praia?, vão por mim, meus amigos, anda cinema por aí nas esquinas, há uma janela aqui num prédio ao pé de onde sai uma planta tão grande que parece uma árvore, alguma coisa se passa naquela casa, as fatias de fiambre tinham uma cor esquisita, deviam ser de peru, o que aconteceu ao outro sapato?, e a taça que o homem levou?, taça de quê?, quem ganhou?, quem marcou?, porque a deitaram fora?, anda cinema por aí nas esquinas, olhem bem para o que vos rodeia, usem a cabeça, detenham-se nos pormenores, aprendam a olhar, exercitem a imaginação, armem-se em detectives de algibeira, detectives de lavandaria, detectives de escada, clint eastwoods de talho, peçam seis carcaças como se fossem do fbi, saiam do café como do saloon, já com o bandido morto e vocês ainda de pistola quente, olhem de baixo e de cima, puxem bem do cigarro, ajeitem a gola, olhem ao longe, fixem caras, olhem a roupa estendida nas varandas, olhem as mãos, detenham-se nas unhas, atenção aos sapatos, o que quero dizer é que, além do romantismo de vos querer fazer ver que há cinema e literatura em todas as esquinas, é que a vida, vá, a vidinha, tem de ser levada como as séries de televisão, as anotomias de grey e afins, nós temos muitos dias, trezentos e sessenta e cinco por ano, vezes uma data de anos, ou seja, temos dias a mais para viver, as pessoas que escrevem séries de televisão só têm trezes episódios, treze dias de vida, por isso é que cada episódio tem várias lições de vida, eles têm pouco tempo para desperdiçar, e têm de ser muito bons para terem segunda série de treze episódios, mais treze dias de vida, nós devíamos viver só um ano, escola até um mês, depois três meses a viajar, foder e comer, depois casar, filhos e morrer, vão ver que as coisas correm muito melhor, vão ver que as esquinas deixam de ser banais, isto não ajuda a viver, mas ajuda a suportar a vidinha, o que já é bom, aguentaram este parágrafo tão grande até aqui?, é porque são tolos, só estava a gozar com vocês, mas, agora a sério, passem lá o indicador pelo polegar, assim muito devagar, e vejam lá se não conseguem sentir, são impressões digitais, não são?, não, tolos, são dunas, a vida é isso, é o que está sub-entendido na vidinha, era isto que vos queria dizer, é óbvio que isto é pirosinho, mas tenho bom público, vocês percebem, dois mil e dez continua igual a dois mil e nove.

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

na última gala dos ídolos,

houve um miúdo que foi lá cantar uma música dos anjos. o manuel moura dos santos achou aquilo 'pop foleiro'. como é óbvio neste país, caiu-lhe tudo em cima. hoje, no 24horas, os anjos dão a resposta: 'sentimo-nos altamente insultados. as pessoas precisam de legitimidade para falar e ele é ilegítimo para isto. não conheço nenhum artista conhecido que trabalhe para ele. o rui veloso despediu-o, os motivos pertencem ao foro íntimo e profissional dos dois, mas há coisas no meio da música que todos nós sabemos'.

bom, para que é que trago isto hoje à baila? porque é um típico episódio de como o português pensa, ou melhor, de como o português reage às críticas profissionais. quando alguém diz a um português que o seu trabalho não está bem feito (ou que não gosta de todo) ele fica sem chão, não está à espera, não está habituado a tanta frontalidade, fica nervoso, dói-lhe a barriga, não sabe como reagir. então, o que é que faz? contra-ataca com insinuações privadas. reparem no exemplo dos anjos: ele foi despedido pelo outro..., razões íntimas..., a gente sabe o que é...

é a reacção típica, pelo ataque baixo, muito normal em todas as empresas deste país, o gajo diz que não gosta do meu trabalho mas ele não gosta é de mim, o gajo é feio, o gajo é gordo, o gajo é do benfica, o gajo queria era levar-me para a cama mas não consegue, o gajo está a fazer tudo para me despedir, o gajo foi despedido do trabalho anterior, ninguém gosta dele, não se vê ao espelho..., aquela então é uma puta, dorme com todos, só tem aquele cargo porque andou a dormir com o patrão, e é gorda, e cheira a puta, e por aí fora, os exemplos são muitos.

quando o português é criticado no seu trabalho (ou alguém não se ri das suas piadas, se ficarmos só por aí...) é como se lhe dissessem que a mãe é uma galdéria, e então, como os anjos disseram, sentem-se 'altamente insultados', e até ponderam ir para tribunal, mas antes partem para a única maneira que sabem de se defender: o assassínio de carácter, mas sem a noção consciente disso, o assassínio de carácter de quem lhes faz frente é uma coisa de pele, apreendida desde a infância, não fosse a única maneira de sobrevivência num país que foi e sempre será uma aldeia da roupa branca. muito branca, imaculada...

‘Não estava bêbedo o suficiente para não sentir que tinha desfeito a sua casa,

que dentro dele nada estava no sítio certo, mas que ao mesmo tempo – e era verdade, era maravilhosamente verdade -, pelo chão ou no tecto, por baixo da cama ou a flutuar numa bacia, havia estrelas e pedaços de eternidade, poemas como sóis e caras enormes de mulheres e de gatos onde ardia a fúria das suas espécies numa mistura de lixo e placas de jade, e na sua língua, onde as palavras se entrelaçavam noite e dia em furiosas batalhas de formigas contra centopeias, a blasfémia coexistia com a menção pura das essências e a imagem clara com o pior dos lunfardos. A desordem triunfava e corria pelos quartos com os cabelos suspensos, em madeixas desastrosas, os olhos vítreos, as mãos cheias de baralhos incompletos, missivas às quais faltavam as assinaturas e os cabeçalhos, e os pratos de sopa arrefeciam sobre a mesa, e o chão estava coberto de calças usadas, de maçãs apodrecidas, de ligaduras manchadas. Tudo aquilo crescia de repente e era uma música atroz, maior do que o silêncio felpudo das casas bem arranjadas dos seus familiares imaculados, e a meio da confusão, onde o passado era incapaz de encontrar um botão de camisa e o presente se barbeava com um pedaço de vidro à falta de alguma navalha enterrada num vaso, a meio de um tempo que se abria a qualquer vento como uma vela, um homem respirava até não poder mais, sentia-se viver até ao delírio no próprio acto de contemplar a confusão que o rodeava, perguntando a si próprio se algo em tudo aquilo tinha sentido.’

‘o jogo do mundo’, julio cortázar, pág. 94

segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

fui à fnac

comprar um livro da taschen sobre arquitectura islâmica que só me custou nove euros e noventa e nove cêntimos, comprei a última edição da national geographic, que este mês é dedicada à china em geral e à ásia em específico, ando a documentar-me porque estou a pensar mudar-me para a ásia, onde as casas são mais baratas e há emprego para todos, na fnac sentei-me a ler o livro de contos do cortázar, mas não gostei, e não comprei, pus-me também a ler um bocado da biografia do nuno álvares, mas não gostei, e não comprei, andei à procura de um livro sobre esparta e não encontrei nenhum, adorava ler um livro sobre o afonso de albuquerque, esse grande rufia, e nada há, gosto muito do afonso de albuquerquer porque ele era pouco português, era um mother fucker como já não se fazem, andava sempre à porrada e não tinha medo de ninguém, acho isso bonito, continuam a faltar nas prateleiras alguns livros do hemingway e do roth e do rushdie, ainda não saiu a segunda série do californication, andava no meio das estantes e rocei-me ligeiramente de lado com uma mulher, eu pelo lado esquerdo, ela pelo direito, depois de me passar ela abriu os braços como o cristo rei e pôs-se a olhar para baixo dela, eu fiquei a pensar se ela pensou que eu lhe peguei alguma coisa contagiosa, dois mil e dez continua igual a dois mil e nove, se amanhã houvesse jogo da selecção não podia ser convocado porque apanhei uma chuvada ontem e as costelas encolheram, dói-me tudo ao mínimo movimento, ando de lado para não forçar, ando a fazer como as camisolas de antigamente, a puxar, a puxar, a ver se volto a ter folga de tamanho, neste caso é a respirar, a respirar, como se estivesse a correr em monsanto, ou então nem foram as costelas que encolheram, pode ter sido o coração que ficou maior, ah, tão fofinho, o coração que ficou maior...

estava aqui a ver o 'call girl' na tvi

e confesso que cheguei a várias conclusões, primeiro o ivo canelas é bom, depois a soraia chaves não é nada má de todo, obviamente que há alguma dificuldade em olhar para a soraia chaves e perceber o que ela diz na medida em que o que ela diz não interessa para nada na medida em que a soraia é estratosfericamente carne, o curioso disto é que há alturas do filme em que ela, lá do alto, fala e a gente ouve-a, e essa é a grande diferença entre uma posta de novilho e uma actriz, amanhã ponho aqui mais uma citação do cortázar que é para verem o que é um gajo a escrever mesmo bem, não me venham cá com bolaños e essas merdas, e muito menos me venham dizer para eu escrever um livro, o problema de muita gente que escreve livros é que - inocentemente, dou de barato - não têm vergonha na cara na medida em que não lêem os grandes livros e por isso não têm noção do que é uma merda bem escrita e do que é carne no talho, como a soraia chaves, mas a soraia chaves, como já vos disse, é uma rapariga simpática e trabalhadora, e toda a gente sabe como eu gosto de gente simpática e trabalhadora.

domingo, 3 de Janeiro de 2010

'Uma noite cravou-lhe os dentes na carne,

mordeu-lhe o ombro até fazer sangue porque ele, já um pouco perdido, se deixou levar. Houve um pacto confuso sem palavras, Oliveira sentiu que a Maga esperava dele algo como a morte, algo nela que não era o seu eu consciente, uma forma obscura que reclamava a sua aniquilação, a estocada lenta de boca para cima que rasga as estrelas da noite e devolve o espaço às perguntas e aos terrores. Apenas dessa vez, hipnotizado como um matador mítico para quem matar é como devolver o touro ao mar e o mar ao céu, Oliveira humilhou a Maga durante uma longa noite da qual pouco falaram depois, fê-la Pasifae, virou-a e usou-a como um adolescente, explorou-a e exigiu dela a servidão da puta mais triste, elevou-a a constelação, teve-a entre os seus braços a cheirar a sangue, fê-la beber o sémen que corre pela boca como o desafio do Logos, sorveu a sombra do seu ventre e da sua anca, levando-lha à cara para untá-la de si mesma, parte última do conhecimento que só um homem pode dar a uma mulher, encheu-a de pele, cabelo, saliva e queixas, esvaziou-a até ao fim da sua magnífica força e acabou por atirá-la contra a sua almofada, sentido-a chorar de felicidade contra a sua face que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel.'

'o jogo do mundo', julio cortázar, pág. 46

dia a dia


sábado, 2 de Janeiro de 2010

curioso,

hoje é dia dois de janeiro e nada mudou, há uma árvore aqui em frente da janela que está toda despida de folhas, excepto de uma, que está bem lá no cimo, e tem a forma de um coração, é verdade, tirei uma foto e tudo, apresentarei aqui a prova assim que tiver vagar, que é uma coisa que tenho pouco agora, uma vez que ando ocupadíssimo a pensar no que vou fazer em dois mil e dez, não é o que faço, é o que vou fazer, é diferente e faz toda a diferença, a passagem de ano é excelente, precisamos de barreiras psicológicas para nos fazermos homens, mas depois janeiro é frio e chuvoso, chegamos a março e já só queremos férias e comédias românticas e bolos e pastilhas de morango, a folha em forma de coração no cimo da árvore toda despida é uma boa metáfora, do género o amor resiste a tudo, até à vida invernosa, ou o amor está acima de tudo, e coisas assim que a gente gosta de acreditar, a pensar que os deuses, ou qualquer outra coisa, nos põem à frente um enredo de pistas para a gente deslindar, mas com a idade tornamo-nos uns cínicos, hoje fui tomar o pequeno almoço às quatro da tarde e estava uma rapariga sentada à minha frente a falar ao telefone com a mãe, aliás gritava, eu a vê-la assim e, talvez por isso, a pensar: esta é boa de corpo, o que se confirmou quando se levantou, não era espectacular de mamas, mas tinha a barriga lisa e o rabo em forma de coração, é para verem como o cinismo também é uma coisa boa, sou um desses dos pés à cabeça, dois mil e dez continua igual a dois mil e nove, mas o ano também entrou logo com um fim-de-semana, é conveniente esperar, entretanto vou continuando aqui a pensar no que vou fazer quando estiver calor, desculpem lá este parágrafo tão grande, mas dois mil e dez vai ser o ano dos parágrafos grandes, vai, vai, isto não é uma ameaça, não tenham medo, sou só eu a ser cínico, como o lobo antunes, que em dois mil e nove foi um cínico quando disse 'não sei o que o futuro pensará de mim, sempre me imaginei uma criança a brincar na praia, que às vezes encontra um seixo mais polido, uma conchinha mais bonita, enquanto o grande oceano da verdade permanece intacto à minha frente', ah, a escrita sai tão melhor quando se escreve ao som de música.

sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

comportávamo-nos como rafeiros abandonados,

eu andava sozinho, outros iam aos pares, andávamos assim à procura, uns ainda cheios de energia, outros já cansados das voltas pelas esquinas, olhávamos uns para os outros e sentíamos o desespero, a angústia, a tristeza no fundo, já me preparava para regressar a casa, cabisbaixo, quando de repente o encontrei, lindo, luminoso, a pulsar de vida, entrei e lá estavam eles, os meus companheiros de procura, todos felizes, não dizíamos nada uns aos outros, mas sentíamo-nos camaradas, aquele sentimento que só se tem nos bairros de lata do fim do mundo em que somos os únicos turistas e de repente cruzamo-nos com outros turistas, e por momentos sentimos vontade de falar uns com os outros, só para dizer 'olá', ou perguntar 'é seguro?', tolices..., e depois saí, atravessei as ruas e vi uma família dentro de um carro, todos a olhar pelos vidros, desesperados, de repente viram-me e pararam, iam-me perguntar qualquer coisa e eu já sabia o que era, e já sabia que ia começar o ano a fazer um boa acção, e o pai vira-se para mim e pergunta-me o que já estava à espera: 'sabe se hoje há algum café aberto por aqui?'.

quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

esta semana andei a pensar num texto de despedida

de dois mil e nove, que foi um ano a merecer um claro e impedioso epitáfio, fiz alguns rascunhos, mas todos me pareceram lixo, até que fui à janela fumar, duas e meia no relógio, noite cerrada, chuva, frio, vento, e um mocho começou a piar numa árvore lá ao fundo, um mocho ainda na cidade, um mocho que é uma ave nocturna de rapina, é um assento sem costas e é um homem tristonho e misantropo, isto li eu agora no dicionário, e lembrei-me que depois do mocho piar passou um homem sozinho na rua, passou por baixo da janela a desviar-se das poças e a sacar de um cigarro de dentro do casaco,

isto sim é uma despedida condizente com o que foi dois mil e nove, é por isso que não escrevo ficção, a realidade tem arranjado sempre argumento, a realidade tem-se superado, é por isso que leio tanto, tanto, tanto, para perceber, para encaixar tudo em lógicas.

bom ano para vocês todos, especialmente para os meus, que são tantos e de quem tanto gosto.

quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

dia a dia


terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

estava um homem no metro

que levava um bigode muito grande, e entre o bigode e o nariz tinha uma verruga enorme, que estava pendurada naquele poste que temos a separar as duas arcadas nasais, de baixo parecia que o homem tinha um piercing de carne tesa, já visto de cima parecia um pequenino ovo de codorniz no ninho.

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

ontem cheguei à pastelaria

e o tipo já estava com o palmier recheado naquelas mãos mecânicas que eles têm para agarrar nos bolos, ele tinha-me visto pelo vidro ainda eu vinha lá ao fundo na rua, o café duplo já estava quase a sair, ele começou-se a rir, discretamente, eu ri-me e disse: é isso, é isso,

houve uma fase da minha vida, aqui há cerca de três meses, em que me deu desejos de palmiers recheados, devia ser carência de qualquer coisa, o café duplo de manhã é normal, os palmiers não eram, além disso os desejos coincidiram mais ou menos com a altura em que comecei a frequentar esta pastelaria, de modo que o tipo decorou o que eu queria logo na primeira semana, e já chegámos a este ponto, ele vê-me do outro lado da rua e reserva-me logo o artigo, não vá alguma velha aparecer com ideias, eu gosto da atenção, mas vamos com calma,

eu não escolho os políticos que me governam, escolho os candidatos que antes foram escolhidos pelos partidos, sou vigiado por câmaras em quase todo o lado, o meu telemóvel tem um dispositivo que me localiza imediatamente, dos movimentos com o cartão nem se fala, andamos, como vocês sabem, a viver nestas gaiolas (e a culpa é toda nossa), gostava pelo menos de ter alguma liberdade, alguma, por mais pequena que seja, a liberdade, por exemplo, de entrar numa pastelaria e escolher um palmier ou um queque, uma queijada ou um mil-folhas,

chegar à pastelaria e vê-lo com o palmier recheado reservado para mim foi uma angústia, não tive coragem de lhe dizer 'hoje era uma torrada aparada', porque o que ele está a fazer é uma gentileza, mascarada de profissionalismo, e não quero ser ingrato, não quero que ele pense 'então, guardei-te o palmier e hoje queres uma torrada?', acho desconfortável, mas algum dia vai ter de ser, naturalmente, mas está difícil, de qualquer modo, para o caso de não me conseguir safar desta, já andei a pesquisar na zona para encontrar uma pastelaria alternativa, até porque três meses a comer o mesmo bolo aborrece-me, quem disse que a vida na cidade era fácil?,

entretanto, saí e fui ali a um quiosque de café que fica à entrada do centro comercial, tem aquelas coisas da nespresso, já que não se pode fumar lá dentro ganhei o hábito de ir buscar um café, trazer no copo de papel para a rua e prostituir um marlboro enquanto oiço música e aprecio a fauna hominídea, pois ontem nem precisei de pedir, foi só responder sim duas vezes, 'expresso forte, não é?', 'normal, não é?', ela sabia tudo, o outro sabia que bolo ia comer, esta sabia até a cor da cápsula do café, depois fui comprar frango assado (outro hábito) e a mulher fez a pergunta (retórica, claro): 'não quer molho, pois não?´,

o que eu queria mesmo era liberdade, a última vez que fiquei com os olhos marejados foi num documentário que vi há umas semanas sobre a queda do muro de berlim, com toda aquela alegria dos de leste de poderem ir para onde quisessem, a alegria dos povos que se libertam comove-me, não há alegria maior do que a da liberdade conquistada, maior do que amor, porque se não se tiver liberdade nem para escolher entre um palmier recheado e um caracol como é que se pode amar alguém decentemente?, há coisas que para mim são óbvias, mas isto sou só eu a gozar com vocês, que estiveram aqui a ler quinhentas e tal palavras sobre nada.

sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

maquilhado de cal,

foto lusa
lábios rosa ps, olhar estrábico entre a câmara e o teleponto, sócrates dirigiu-se assim ao país para a sua mensagem de natal e ano novo, garantindo energia e optimismo do governo com este olhar cansado e triste, de quem não percebe porque é que, sendo ele tão bom, ninguém o leva em ombros. ninguém o preparou para isto. estou contigo, josé. vai-te embora, não olhes para trás, deixa os ingratos falar, vai para junto de quem gosta de ti, de quem te dá festas na cara e te diz 'está bem, zézinho, está bem...' quando repetes, pela enésima vez, que estás cá para o nosso bem.

dia a dia


quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

dia a dia


quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

dia a dia


dia a dia


terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

há uma taberna

ali ao pé do martim moniz onde gosto de ir comer uma bifana, aliás, um bifinho, aliás, um lombinho, seguido de um sumol de ananás, aliás, um frisumo de ananás, a este estabelecimento vai parar todo o conteúdo dos bairros antigos de lisboa, que vem do trabalho e vai para as suas casas na almirante reis, em alfama e na mouraria, há umas semanas veio um cauteleiro ter comigo ao balcão e atirou-me com um bilhete da lotaria, atirou-o como se fosse uma beata, ficou ali o bilhete entre mim e ele, abandonado, a ver se eu o queria, eu não o queria, mas obrigado, e diz-me ele assim: tem a certeza?, tenho, tenho, olhou para o bilhete, camuflado entre guardanapos brancos com padrões de nódoas, lombinhos e taças de vinho, e disse assim: sessenta mil euros aqui em cima, pá..., com a voz arrastada, voz de descrença no futuro do humanidade, a ver se me comovia, não me comoveu, mas gostei da dramaturgia,

hoje chegou um senhor de gravata e pediu uma taça de vinho e um lombinho, disse isto pontuado com boas tardes e obrigados, e o homem do balcão muito educado também, com certeza, é para já, veio o lombinho, e disse o senhor da gravata: parta-mo ao meio, com certeza, disse o do balcão, ao que o da gravata, ao ver o que ele estava a fazer, irrompeu logo: mas parta-me na horizontal, aí pela forma do pão, pá, senão não consigo comer isso sem me cagar todo, e o do balcão disse: naturalmente,

é um sítio onde a delizadeza não tem lugar, a não ser como por cansaço, é um sítio para machos, machos que se adoram mas só têm um código de relacionamento: a chamarem nomes uns aos outros, a gritar, a fazerem gestos bruscos, mas tudo em onda de camaradagem, como convém, estava eu a falar de delicadeza, que não há, pegam nas moedas e batem com elas no balcão de alumínio, como os velhos batem as cartas,

lá do fundo um cliente pede um pastel de bacalhau, o das mesas grita bem alto: sai um pastel de bacalhau, o do balcão ouve e passa o recado, bem alto: sai um pastel de bacalhau, o destinatário é um senhor que está a cozinhar numa frigideira grande virada para a montra, está sentado num banquinho, sua muito da testa e com uma espécie de garfo dedica-se a afogar os bifinhos no molho, entretanto ouve o pedido e com o mesmo garfo dos bifinhos espeta um pastel de bacalhau e mete-o num prato, mas engana-se, era um prato muito grande, pega no pastel e aventa-o para um prato mais pequeno, aventa assim como o outro aventou a cautela, espero que saibam o que quer dizer aventar, mas tudo é calculado, parecem brutos, mas o que são é rápidos e precisos,

e então grita: olha o pastel de bacalhau, o que está ao balcão vai buscar o prato e passa ao outro colega, mas não passa em mão, põe o prato no balcão, leva o braço atrás para ganhar balanço e atira o prato, fazendo-o deslizar até à outra extremidade, assim como fazem os tipos do bares com as canecas de cerveja, houvesse aqui slow motion e ver-se-ia o pastel de bacalhau a dançar no prato, entretanto peço a conta, pago e o troco vem no pires dos tremoços, e vem o outro e grita: sai um lombinho, o que é que vai beber, amigo?, assim de bigode manhoso, e o ciclo recomeça, acho isto tudo muito bonito.

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domingo, 20 de Dezembro de 2009

então o benfica lá ganhou hoje a uma equipa,

quem marcou foi o saviola, eu estou apaixonado pelo saviola, já disse que o meu amor é o aimar, mas agora apaixonei-me também pelo saviola, porque o saviola é um tipo que está a 'renascer', é muito triste quando uma pessoa tem tantas qualidades e por uma casualidade do destino, por uma má opção, tomada num dia de chuva num bar de hotel, ou por ter chefes medíocres, por tudo isso, e mais outras coisas eventuais, anda meses, anos, a arrastar-se, descrente, em si e na vida e no futuro, mas depois aparecem uns tipos e dizem assim 'anda cá para o pé de nós, que a gente gosta de ti, a gente acredita em ti',

esta merda toca um gajo, foda-se, e depois o gajo aceita e ainda por cima vai trabalhar com malta igual a ele, ou então malta jovem, malta divertida, gente irreverente e irrequieta, e então esta merda é tudo um gozo danado, e nota-se no saviola que ele joga a rir, que ele está feliz, nota-se que ele se sente no meio de uma família, sente-se protegido, sente-se quente, e vê-se que ele tem umas ganas danadas de retribuir todo o amor que lhe estão a dar, eu acho isto bonito.

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

ia um casal no metro

ele era castanho escuro e ela era cor-de-rosa, eram os dois novos, ela era morena e tinha um decote muito grande, de onde, aconchegado pelo algodão, espreitava um peito anunciando calor, por cima do decote tinha uma tatuagem de uma pequena pegada de gato, depois via-se outra pegada, mas esta já estava meio coberta pela blusa, uma pegada assim desenhada de lado, já em descida lânguida pelo meio das duas maminhas, os gatos são assim, andam sempre à procura do calor,

nós todos estávamos a ver aquilo e imaginávamos até onde o gato tinha ido no corpo dela, a literatura é isto mesmo, é o gato e o peito, mas é mais, é a pegada meio descoberta, é a ilusão de haver mais, é o que está subentendido, é a promessa de um caminho para a felicidade, que neste caso só o homem castanho escuro conhecia, é nós cheios de inveja dele, e ele olhava-lhe para o peito, via as pegadas do gato, e depois levantava a cabeça e via o mapa das estações, como se uma e outra coisa fossem o mesmo, neste caso já não é literatura, é a vida, que é uma coisa, e o amor, que é outra, como dizia alguém.

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

então o di maría fez assim

ia a correr muito, muito, muito, viu que tinha um ao lado e passou-lhe a bola por baixo das pernas, depois olhou para a baliza e viu que vinha de lá um senhor com as mãos abertas para meter medo, ele pensou em chutar com o direito, mas dava-lhe mais jeito chutar com o esquerdo, quer dizer, não dava, apeteceu-lhe, então desaparafusou a perna direita, desaparafusou a esquerda, trocou as duas, atarrachou a esquerda no lado direito e rematou.

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

sinais dos tempos

quando a gente era criança os colegas da escola diziam assim:
- ah, eu tenho um cão muita grande!
- também eu, maior que o teu...
pelos vinte anos:
- ah e tal, eu tenho um gato muita lindo!
- eu tenho dois...
quando passamos os trinta:
- ah, eu tenho um amigo que é gay!
- boa!

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